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ESOTERISMO BÍBLICO - ALEGORIA DO PATRIARCA JACÓ (Gênesis, 27 a 50)

“A fé cega e a crença é um parasita que só floresce no estéril campo da ignorância e da indolência.” (Carlos Brandt)

As Escrituras Sagradas, de todas as tradições, revelam verdades eternas, atemporais, tais como as leis do ser, as experiências místicas interiores e a evolução dos mundos e seres. O mito, os símbolos e as histórias são pano de fundo para mostrar, aos que têm olhos e condições evolutivas de ver mais além da “letra morta”, operações do Altíssimo na natureza, universos e seres.  Mostram as operações e experiências místicas e esotéricas do gênero humano em geral, o despertar gradual da consciência humana e as grandes iniciações do homem e da humanidade.

O Antigo testamento, em questão neste artigo, trata com riqueza simbólica e mitológica diversas experiências que o homem, os homens, as nações, o planeta e os universos passaram, passam e passarão no que se refere à evolução.

Uma das passagens bíblicas se refere ao Patriarca Jacó. Na longa vida de Jacó, a Bíblia narra a lenta e penosa transformação de uma pessoa desonesta e egoísta num homem sagrado de Deus, quando Jacó se torna Israel. A história ilustra, na verdade, os três níveis da humanidade: Esaú representa o nível físico, instintivo e emocional, Jacó e Labão o nível mental e Israel o nível espiritual. Do ponto de vista esotérico, esses nomes representam estágios no caminho da iniciação espiritual. (conf. Baughman)

Jacó e Esaú, filhos de Isaac e Rebeca, não deram no início da vida nenhuma indicação de estar à altura da herança que haviam recebido. A diferença entre esses gêmeos era evidente desde o nascimento, quando Jacó, “o que suplanta”, nasceu segurando o calcanhar de Esaú, o “ruivo”. (conf. Fillmore) O Criador havia explicado a Rebeca que duas nações estavam em seu ventre, e que o mais velho iria servir ao mais novo. Esaú iria tornar-se pai dos Edomitas, um povo que habitaria o deserto ao sul do Mar Morto, em geral subserviente aos descendentes de Israel (Jacó), na parte norte.

A traição com que Jacó trapaceou Esaú, tirando-lhe seu direito de primogênito e, mais tarde, a bênção paterna, é descrita nesta famosa história do Velho Testamento. Como nas histórias anteriores (Abel e Set suplantaram Caim; Sem suplantou Caim e Jafé; Abraão tomou a frente com a morte do irmão Harã; Issac era o legítimo herdeiro, em vez de Ismael), eis aqui uma história em que o “fraudulento” e “mentiroso” Jacó rouba a herança de Esaú. Parece ser uma lei da eugenia espiritual que aqueles nascidos mais tarde sejam mais evoluídos e, portanto, mais qualificados para promover a evolução do seu povo.

A história de Esaú e Jacó tem certas semelhanças com a história do “filho pródigo” das Escrituras Cristãs. Ou seja, o prazer proporcionado pela vida sensorial dura até que o vazio e a falta de significado dessas experiências forcem a alma a dar as costas para o que é material e voltar-se para o espiritual. Esaú é um exemplo de pessoa que se concentra principalmente no plano físico da existência e que, sendo uma pessoa cuja mente está voltada para as coisas materiais, teria de servir a Jacó, uma pessoa mais voltada para as coisas espirituais, até evoluir para um nível mais espiritualizado. O corpo e as emoções não devem acaso servir à mente e à alma? (conf. Heline)

Os principais acontecimentos na vida de Jacó representam aventuras na ascensão da consciência, passos ilustrativos da iniciação ao longo do caminho espiritual. A primeira experiência aconteceu quando Jacó estava correndo rumo ao norte, aparentemente para procurar uma esposa em Harã mas, na realidade, fugindo da ira assassina do irmão Esaú. Cheio de medo e de culpa com a enormidade dos seus pecados e aflito devido ao exílio forçado, Jacó pegou no sono e teve a sua famosa visão de uma “Escada” que conduzia ao céu, com anjos subindo e descendo. Estava assustado, mas sabia que o Senhor o estava guiando e zelando por ele. Jacó despejou óleo em seu travesseiro de pedra e consagrou-o a Deus, prometendo-Lhe um décimo de tudo o que ganhasse.

Jacó estava fugindo de Berseba, um lugar de consagração, para as montanhas de Harã, um lugar de consciência elevada. No simbolismo das Escrituras Sagradas, monte e montanha sempre simbolizam uma elevação de consciência. Seu sono significava que os sentidos exteriores estavam amortecidos; seu travesseiro de pedra tem paralelo com a sabedoria da “pedra filosofal” dos alquimistas. Os anjos subindo e descendo a escada representam os níveis da consciência, de Deus até a humanidade.

De um ponto de vista cósmico, a escada revela todo o plano de evolução que o Grande Arquiteto (o Deus de nossos corações) projetou. As almas descem do céu para a materialidade e, então, sobem novamente. A “Terra Prometida” a Jacó significa um corpo regenerado e purificado. O ato de despejar óleo sobre a pedra indica a sabedoria e compreensão obtidas com essa visão, um paralelo com o “desbastar da pedra bruta”, ou com a “reforma íntima”.

Ao continuar sua viagem para o leste, Jacó encontrou três rebanhos de ovelhas deitados ao lado de um poço. Os rebanhos não podiam beber água, pois havia uma grande pedra na boca do poço. O “leste”, na filosofia esotérica, é associado à fonte de luz. (conf. Heline) A tarefa de Jacó era remover a pedra da ignorância, do preconceito e da superstição, tirando-a do poço da verdade viva, para que ele pudesse beber das águas da vida. Aqui ele encontrou sua prima Raquel, que viera para dar água às ovelhas do pai. Raquel representa a alma, a divindade feminina, alimentando outras almas (rebanhos de ovelhas). A busca do ser humano pela alma é ilustrada pelos 14 anos de luta de Jacó para tomar Raquel por esposa. Somente quando coordenarmos nossa personalidade (é uma luta constante) poderemos ouvirmos a alma e beber das suas águas (sabedoria).

Na casa de seu tio Labão, em Harã, Jacó encontrou alguém à sua altura em matéria de astúcia. Uma interpretação literal do Gênesis indicaria que os dois aplicaram truques desleais um ao outro durante 21 anos. Jacó certamente foi o perdedor nas disputas pelas noivas Lia e Raquel, mas levou a melhor sobre Labão na disputa pela riqueza representada pelos rebanhos de ovelhas. O nome Labão significa “branco” ou “brilhante” (conf. Heline), indicando que ele era mestre espiritual de Jacó. Jacó levou sete anos para receber a mão de Lia, a irmã mais velha, menos favorecida e menos evoluída. Os nossos primeiros anos no caminho espiritual são longos, penosos e difíceis. Foram necessários mais sete anos de trabalho duro para ganhar a qualidade de alma personificada por Raquel, a irmã mais nova. (conf. Fillmore) A maturidade espiritual não vem da noite para o dia, exige muita reforma íntima e conhecimento de si mesmo.

Os dez filhos e a filha de Jacó com Lia e com sua serva (Bala) e também com a serva de Raquel (Zelfa) representam os atributos da personalidade duramente adquiridos. Essas eram as qualidades a serem conquistadas antes que a alma (casamento com Raquel) pudesse frutificar. (conf. Heline) Somente depois que Jacó conquistou uma personalidade plenamente integrada (psicossíntese) é que Raquel finalmente deu à luz o filho José, “aquele que tira a luz da escuridão”. Depois que os níveis espirituais são alcançados, eles precisam ser expressos na vida cotidiana. “A fé sem obras é morta.” Jacó, então, tinha trabalhado para Labão durante 21 anos. Era chegado o momento de retornar à sua própria terra levando a luz.

Depois de alguns acertos de contas com Labão, todos de significado espiritual, Jacó, suas esposas, filhos e grandes rebanhos foram para Canaã. Entretanto, ele soube que Esaú, com 400 homens, estava vindo ao seu encontro. Jacó ficou assustado e rezou para Deus pedindo ajuda. Essa história nos diz que Jacó ainda tinha algumas forças rebeldes na sua natureza, as quais ele tentou expiar mandando presentes para Esaú.

Em outra ocasião, enquanto dormia, Jacó teve uma nova visão, na qual lutava a noite toda com alguém até que, finalmente, descobriu que não somente não conseguia dominá-lo, como também descobriu o caráter sobrenatural do seu adversário, um anjo de Deus. Após essa descoberta passou a exigir-lhe uma bênção. O adversário, visto como um anjo, deslocou, então, a articulação da coxa de Jacó, fazendo com que a luta parasse. Isso indica sua luta interior com as sombrias forças interiores, com aquelas lições de vida que ainda estavam por ser aprendidas. Ao vencer seu desesperado desafio, ele teve uma visão interior que descreveu como “ver a face de Deus”. Já ao romper do dia, significando um novo nascimento e um novo nome, Jacó ganhou o nome de Israel por ter sido “forte contra Deus e contra os homens.” Tendo visto e vencido o anjo do Senhor, Jacó estava espiritualmente apto para enfrentar qualquer circunstância adversa que a vida lhe impusesse e para agir com amor e de forma correta.

Entretanto, ele foi suficientemente esperto em proceder com cautela no seu encontro com Esaú, que poderia ainda estar ressentido. Aqui a Bíblia oferece uma linda descrição de um rito de iniciação em que o mal é transmutado em bem. Nesse encontro, Jacó “viu Deus” em Esaú e abraçou-o com ternura e compaixão. Esaú também tinha crescido espiritualmente e deu a boas-vindas a Jacó sem nenhum resquício de ressentimento pelos antigos maus-tratos.

Nos anos seguintes, Jacó teve outras oportunidades para pôr à prova e aperfeiçoar suas qualidades espirituais, até que, finalmente, sua comunhão com os mundos superiores foi consumada. Isso descreve aquilo que conhecemos hoje como a “continuidade de consciência”. Agora, a fusão do espírito com a alma, ou seja, de Jacó com Raquel, estava concluída. Sua união foi abençoada com o nascimento do décimo segundo e último filho, Benjamim. Nos 12 filhos de Jacó vemos as características do Ser divino dentro dos seres humanos.

Em virtude da conversão espiritual vivida por Jacó, que, assim, ganhou o nome de Israel, a nação de Israel nasceu espiritualmente. (conf. Bock) A família de Jacó estava mudando de Harã, na Babilônia, para o local conhecido hoje como Palestina, a terra natal de seu pai Issac, que herdara de Abraão. Com o nascimento do décimo segundo filho, Benjamim, a família tornou-se, finalmente, uma nação com sólidas raízes. Graças à purificação de sua vida religiosa e à força de caráter que os capacitou a responder aos desafios da vida com crescimento espiritual, eles desenvolveram as faculdades mentais e o senso de responsabilidade pessoal, que chegaram até eles juntamente com um influxo de energia da alma.

Como me referi no início deste artigo, nunca podemos deixar de entender o fato de que os “personagens” bíblicos, com raras excessões, nunca existiram; são somente símbolos e arquétipos, comum a todas as tradições do mundo. A essência e a mensagem são as mesmas, o que muda é o cenário, a representação. São personificações de atitudes e da grande caminhada dos mundos, povos e de cada ser humano individualmente, caminhando das trevas à luz, do profano ao iniciado. Que isso possa nos inspirar na nossa senda evolutiva, fazendo-nos compreender que a caminhada é longa e árdua; muitas vidas, muita ação e reação, encontros e desencontros e muita reforma interior são as exigências para sermos “fortes até perante Deus”, e retornarmos ao “paraíso perdido”, ou seja, a mundos superiores de muita luz.

Os três valorosos patriarcas (Abraão, Isaac e Jacó) seriam seguidos por um quarto grande líder, José. Ele foi o primogênito de Raquel e Jacó, um homem predestinado e o salvador da raça hebraica em épocas difíceis que estavam por vir. Mas isto é tema para outro artigo.

Prof. Hermes Edgar Machado Junior


Referências e sugestões bibliográficas:
-“Gênesis: uma interpretação esotérica”, Sarah Leigh Brown
-“A Bíblia como uma História Pessoal: uma jornada para a luz”, John Lee Baughman
-“Gênesis, Criação e Patriarcas”, Emil Bock
-“Dicionário de Metafísica Bíblica”, Charles Fillmore
-“Mistérios do Livro Gênesis”, Charles Fillmore
-“A Bíblia e as Estrelas”, Corinne Heline
-“Uma Nova Interpretação Bíblica: Velho Testamento, vol 1, Corinne Heline
-“O Conceito Rosacruz do Cósmos”, Max Heindel
-“A Epopéia de Gilgamesh e Paralelos com o Velho Testamento, A. Heidel
 
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