O cangaço e o poder do coronéis (parte 2)
- Ter, 16 de Setembro de 2008 11:36
- Escrito por Mirlene Souza
- 4274 leituras
As origens do Cangaço
É difícil localizar uma data precisa para a origem dos bandos de cangaceiros no sertão nordestino, mas existem teorias que apontam a ancestralidade mais próxima do Cangaço em grupos de bandidos que agiam desde o século XVIII, espalhando o terror entre a população sertaneja a fim de impor a lei dos latifundiários e garantir a disciplina e a manutenção da propriedade. Bandos como os “cacheados” e os “vira-saias” seriam dois exemplos de indivíduos cuja incumbência era manter o controle da mão-de-obra e da posse da terra sob o poder das elites agrárias dominantes, executando vinganças e eliminando inimigos políticos.[1]
Um dos precursores do cangaço tal como é conhecido na atualidade teria sido Jesuíno Brilhante, que formou seu bando em 1871, no Rio Grande do Norte. Contemporâneos a ele outros bandos surgiram tais como os Viriatos e os Serenos, mas foi a partir de Jesuíno Brilhante que a imagem romântica do cangaceiro começou a ser construída e divulgada pela população.
Mais tarde, em 1896, surgiu Antonio Silvino, cangaceiro que ficou célebre pela ousadia de seus atos e pelo domínio que exercia no sertão:
“Manuel Batista de Morais, que ficou conhecido como Antonio Silvino, foi Rifle de Ouro, Rei do Cangaço e Governador do Sertão. (...) ‘Governou’ o sertão do Ceará, Pernambuco e Paraíba durante dezesseis anos. Roubou, saqueou e assassinou políticos contrários aos ‘seus’ coronéis e praticamente ignorou a polícia.
(...)
Foi o primeiro bandido a ser amplamente cantado pelos livretos de cordel, impressos já com maior facilidade, apesar do sistema atersanal.” [2]
Virgulino Ferreira da Silva, que ficou conhecido como Lampião, sucedeu Antonio Silvino em seu posto de Rei do Cangaço. Iniciou sua vida de cangaceiro por volta de 1918, quando ingressou no bando de Sebastião Pereira. Após a saída de Pereira, assumiu a liderança do grupo, procurando aumentá-lo e fortalecê-lo. Seu poder foi pouco a pouco crescendo e se ampliando por mais áreas, de forma que Lampião acabou se transformando no maior ícone do cangaceirismo nordestino.
Diante destes casos, o que se apresenta como uma questão relevante, mais do que descrevê-los, é tentar identificar as motivações que levaram estas pessoas, assim como tantas outras, a seguir o caminho do cangaço. Neste sentido, a estrutura econômica baseada no latifúndio pode ser indicada como um importante elemento que contribuiu para o surgimento dos cangaceiros.
Segundo Raul Facó, em Cangaceiros e Fanáticos (1976), a existência destes criminosos era um produto justamente do atraso econômico nacional, engendrado pelo monopólio da terra e pela longa permanência do sistema escravista como forma predominante de mão-de-obra. O trabalhador rural e o pequeno produtor estariam, então, sujeitos à expropriação e à exploração, vivendo sob condições miseráveis e desprovidos de qualquer direito, à mercê da vontade do grande proprietário. Na tentativa de melhorar esta situação, muitos acabavam partindo para o banditismo, encontrando nele uma estratégia de sobrevivência.
Outro fator que pode ser apontado como uma das razões que empurravam os sertanejos para o cangaço são as condições ambientais desfavoráveis da região, marcada pelas estiagens periódicas, muitas vezes longas, que intensificavam a miséria e a fome. Tal hipótese pode ser observada no fato de os bandos de cangaceiros se proliferarem com maior vigor em períodos de seca mais rigorosa.
É o que aconteceu, por exemplo, em 1877, quando se iniciou uma estiagem que durou até 1879. Nesta época a economia nordestina sofreu graves abalos, desorganizando-se em função da morte do gado, da extinção das lavouras e da escassez de água. Além disso, houve uma migração muito grande em direção a Amazônia, que vivia o auge da produção de borracha, provocando queda significativa na oferta de mão-de-obra e ameaçando a manutenção do sistema produtivo apoiado no latifúndio.
Em meio a este cenário econômico instável, o caos social acabou por instalar-se:
“Houve tumultos em várias regiões; vilas foram invadidas, saques eram freqüentes. A primeira preocupação do governo foi garantir a propriedade. Policiais e bandos de civis armados cuidaram de conter os ‘assaltantes’, protegendo armazéns e fazendas. Repeliam os famintos, muitas vezes até matando-os, para depois distribuir como esmola alguns grãos de cereal.” [3]
Assim, os sertanejos mais pobres se encontravam em estado de penúria, sofrendo com a fome e o desamparo do poder público, recorrendo então para a criminalidade como meio de vida.
Em 1915, outra grande seca atingiu o Nordeste, gerando conseqüências catastróficas. Boa parte da população se viu obrigada a se deslocar de seu território de origem, perambulando a fim de encontrar novas formas de sobrevivência, fosse por meio de esmolas, roubos ou assaltos. Observa-se mais uma vez o crescimento dos grupos de bandoleiros e o surgimento de novos bandos, tais como os Brilhantes, os Viriatos e os Serenos:
”Se o latifúndio os gerava, as grandes estiagens, matando as lavouras, dizimando os gados, exterminando a gente, exacerbava-lhes o desespero, não lhes deixando outra alternativa a não ser o banditismo sem quartel.” [4]
Aliado à estrutura fundiária que expropriava as classes pobres e às dificuldades decorrentes do clima semi-árido, outro elemento contribuiu para a partida de muitas pessoas para o cangaço: tratava-se da vingança pessoal. Quando questionados sobre o que os levaram ao banditismo, os cangaceiros geralmente apresentavam como justificativa injustiças sofridas por eles e por suas famílias, perpetradas por fazendeiros poderosos.
Perseguidos pelos coronéis, vítimas da violência e do abuso de poder, muitos sertanejos tinham suas terras tomadas, suas irmãs e filhas violadas e seus parentes assassinados, restando-lhes como única forma de justiça a vingança que somente o cangaceirismo podia possibilitar. Dessa forma, “às tragédias sociais que impulsionavam o crime e provocavam a revolta, (...) juntavam-se as humilhações pessoais, as perseguições e os freqüentes abusos sexuais dos poderosos”[5], que se mantinham impunes.
Lampião, por exemplo, teve a família expulsa de sua pequena propriedade e morta em função de rixas com fazendeiros. Perseguido pelos Nogueira, José Ferreira, pai de Lampião, foi obrigado a fugir de suas terras com a mulher e os filhos, o que não impediu que sofresse represálias por parte dos rivais, sendo assassinado. A partir disso, Virgulino, que já fazia parte do bando de Sebastião Pereira juntamente com os irmãos, torna-se Lampião, consolidando-se definitivamente como cangaceiro[6].
O desejo de vingança não se dirigia apenas aos coronéis, podia também estar voltado para a polícia, que geralmente estava a serviço dos interesses dos grandes proprietários e tratava com violência e descaso os trabalhadores pobres. Era o caso de Labareda e Zé Sereno, companheiros de Lampião. O primeiro dizia ter entrado para o cangaço a fim de fazer justiça à irmã que fora deflorada por um soldado, enquanto o segundo atribuía sua opção em virtude de perseguição policial[7].
Os conflitos entre famílias rivais, por vezes transformados em verdadeiras guerras, também podem ser analisados como fator que estimulou o desenvolvimento do cangaceirismo. As disputas por poder político e por terras fizeram com que os coronéis formassem seu contingente de homens armados para defendê-los, intimidar ou eliminar os inimigos. Neste sentido, os cangaceiros acabaram se envolvendo, fazendo parte destas milícias em troca de proteção e abastecimento.
Tendo em vista os elementos até aqui expostos, é possível perceber que o cangaceirismo é resultado da ação conjunta das condições climáticas rigorosas, da estrutura fundiária injusta, dos abusos de poder dos coronéis e da polícia e das disputas familiares. Em meio a tal situação, o sertanejo encontra-se faminto, explorado, humilhado e desamparado pelo Estado. Seu desespero e seu desejo de vingança o fazem vislumbrar o cangaço como uma forma – muito provavelmente a única – de se fazer justiça e de sobreviver. Desta maneira emergem os bandos de cangaceiros, não exatamente como justiceiros dos pobres cujo objetivo era a contestação da ordem vigente e a transformação social, mas como vingadores, pois:
“Esses grupos isolados, dentro das condições sócio-econômicas opressoras e obsoletas, não tinham visão crítica de sua sujeição política. Não havia política: havia o confronto de interesses de clãs, que se resolvia pela violência, pela lei do mais forte. (...) A valentia nessa sociedade para machos era demonstrada de dois modos; pelos ricos, ao mandarem, pelos pobres, ao matarem. Nos conflitos, os ricos transformavam os pobres em matadores. Cangaceiros.
(...)
Os cangaceiros e o povo da caatinga não tinham consciência social da origem de sua miséria. Percebiam confusamente uma situação de injustiça. Mas reagiam apenas quando eram vítimas de querelas pessoais, não conseguindo ligá-las ao conteúdo da sociedade que os esmagava. ”[8]
[1] CHIAVENATO, Júlio J. Cangaço. A força do coronel. Brasiliense: São Paulo, 1990. p. 11-12.
[2] Chiavenato, op. cit., p. 35.
[3] Ibdem, p. 16.
[4] FACÓ, Raul. Cangaceiros e fanáticos. Gênese e lutas. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1976. p. 166.
[5] Chiavenato, op. cit., p. 29.
[6] MACHADO, Maria Christina. As táticas de guerra dos cangaceiros. Brasiliense: São Paulo, 1978. p. 36-37.
[7] Ibdem, p. 40.
[8] Chiavenato, op. cit., p. 39-40.










