O cangaço e o poder dos coronéis (parte 4)
- Qua, 17 de Setembro de 2008 14:59
- Escrito por Mirlene Souza
- 1998 leituras
Decadência do cangaço
O declínio do cangaço pode ser situado a partir de 1930, com o Golpe liderado por Getúlio Vargas, que pôs fim á República Velha. Deste momento em diante, o domínio das oligarquias rurais começou a entrar em crise e os governos estaduais e federal passaram a se fazer sentir mais efetivamente no âmbito local.
O progresso trazido pelo avanço capitalista exigia novas formas de controle, que se fundasse em bases diferentes das utilizadas pelos latifundiários. Iniciou-se então um processo de desarmamento dos coronéis e de policiamento dos municípios sob a responsabilidade dos governos estaduais, desarticulando o poder militar dos potentados tirando-lhes a possibilidade de manter o controle sobre a população através da força.
As estruturas políticas da República Velha estavam sendo demolidas, chegava ao fim a Política dos Coronéis e era necessário eliminar os instrumentos que permitiam o funcionamento deste sistema. Dessa forma, o cangaço, que anteriormente era negligenciado e em certa medida até aceito pelo Estado – pois era uma maneira de efetuar o controle social e evitar distúrbios maiores – passou a ser perseguido com mais rigidez.
As ações da polícia tornaram-se mais efetivas e eficientes, sobretudo após a construção de estradas, que possibilitou maior mobilidade para as volantes, pois não precisavam mais se embrenhar na caatinga para perseguir os cangaceiros. Também foram as estradas que deram aos sertanejos uma nova oportunidade de fugir do flagelo da seca que não o cangaceirismo. Com as rodovias, ligando o Nordeste ao Sudeste, era possível migrar para as grandes cidades, de forma que o cangaço deixou de ser uma opção atrativa para os flagelados. Assim, os bandos não podiam se renovar, diminuindo cada vez mais.
A reforma eleitoral foi outro fator que contribuiu para a fragilização dos cangaceiros, pois, com a substituição do curral eleitoral pelo voto de cabresto, a intimidação da população através do terror imposto por estes grupos tornou-se desnecessária. Da mesma maneira, a resolução de contendas políticas encontrou uma alternativa além da utilização dos serviços dos cangaceiros. Naquele contexto era mais eficaz e menos dispendioso eliminar seletivamente os inimigos que representavam ameaça real ao poder do coronel.
Na verdade, a extinção do cangaço se deu em função da inadequação desta forma de controle social junto aos novos modelos políticos e econômicos. Incapazes de acompanhar as transformações que se operavam no país , os cangaceiros deixaram de ser úteis para o exercício da dominação coronelista e acabaram sendo extintos.
Tudo isso revela dois conflitos fundamentais e que sempre estiveram presentes no Nordeste: o primeiro se dá em torno das dissonâncias entre o poder do Estado, público, e o poder dos latifundiários, privado. Durante muito tempo o governo se valeu do autoritarismo dos coronéis para conter uma população potencialmente revoltada.
Todavia, este “acordo” resultou na própria diminuição e inoperância do Estado no âmbito local. A partir de 1930, essa disputa, até então latente, torna-se evidente e manifesta-se justamente através do desarmamento e da ferocidade com que se dá a perseguição aos cangaceiros. Era como se Estado estivesse deixando claro que dali em diante assumiria a responsabilidade pelos municípios, mesmo os mais distantes.
O segundo conflito que pode ser percebido diz respeito ao embate entre a sociedade moderna e a sociedade tradicional, observado muito claramente nos anos pós-golpe de 30. A entrada do capitalismo nas regiões mais ermas do Nordeste acirrou ainda mais as desigualdades sociais, empurrando o sertanejo, ainda marcado pelo tradicionalismo, não mais para o cangaço, mas para a cidade.
Quanto ao cangaceiro, perdeu o seu lugar nessa nova ordem. Anteriormente, apesar de ser um bandido, ele fazia parte do sistema, tinha uma participação importante nos jogos de poder da República Oligárquica. Agora não tinha mais tal função, era um elemento à parte da dinâmica política, encontrava-se excluído e poderia ser perigoso mantê-lo. Daí a sua eliminação, demonstrando o caráter descartável da existência do cangaço.
Diante destes fatores é importante salientar que a dependência dos cangaceiros com relação aos coiteiros, que num primeiro momento foi condição indispensável para sua permanência, foi, a partir da década de 30, o elemento que decretou seu fim. Sem autonomia para se sustentar e não dispondo mais do apoio da rede de coiteiros, os bandos de cangaceiros acabaram sucumbindo, vítimas do mesmo sistema que os engendrou, os nutriu e estimulou seu crescimento. Vítimas da traição dos mesmos coronéis que os protegiam, alimentavam e armavam.










