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NATUREZA-MORTA

 

 
            _ O que o senhor está fazendo aí, tio? _ perguntou o garotinho a um senhor que trabalhava com pincéis e aquarelas, pintando numa tela disposta sobre o respectivo cavalete, e que também não tinha muito jeito para falar a linguagem que as crianças entendem.
            _ Estou tentando retratar aquelas montanhas de picos gelados que aparecem bem ao fundo.
            _ E como vai se chamar isso?
            _ Ainda não sei, menino, mas o gênero é natureza-morta.
            _ O que é gên... isso que o senhor falou aí?
            _ Vai ser difícil você entender. Quantos anos tem?
            _ Sete.
            _ Pois bem. Gênero é o mesmo que categoria, classificação, estilo de alguma coisa.
            _ Acho que sei mais ou menos. Meu avô diz prá todo mundo que meu pai é gênero dele.
            _ Mas aí é genro, garoto.
            _ E o que é essa tal de natureza-morta que o senhor falou? O que é natureza?
            _ São coisas sem vida, como objetos, animais mortos, paisagens onde aparecem somente (“ele não vai entender”_ pensou) coisas inanimadas.
            De fato, o sujeito poderia ser um bom pintor, mas falar com crianças não era seu forte
            _ Não entendi o que o senhor falou. E esses rabiscos aí estão parecendo coisa morta, mesmo. Quando eu crescer vou ser pintor. Mas vou pintar coisas bonitas.
            _ Que bom, garoto! E o que vai pintar?
            _ Só coisas vivas. Cachorrinhos, gatinhos, cavalos, mulher pelada.
            _ Que é isso, menino? Por acaso já viu mulher pelada sem ser na televisão?
            _ Vi minha tia Isabel tomando banho. E também minha mãe.
            _ E achou bonito?
            _ Só achei feio o pipi da minha tia Isabel. Tem muito cabelo e não dá prá ver o buraco de fazer xixi. E as tetas dela são bem grandonas. As da minha mãe são pequenas. Parece que só tem os bicos de mamar. A bunda dela é bem grandona.
            _ Da sua mãe?
            _ É. A da tia Isabel também.
            Em seguida o homem retirou a tela do cavalete, recolheu o material de pintura e se despediu do garotinho.
            _ Onde o senhor vai? _ perguntou o menino. _ Não vai acabar de pintar a natureza-morta?

_ Não, garoto. A partir de agora só vou pintar coisas vivas, bem vivas, mesmo, como sua mãe e sua tia Isabel.

 
           
 
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