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Gêneros Textuais Crônica e Notícia de Jornal

Plano de Aula sobre Crônicas e Notícia de Jornal:

 

1) Objetivos:

            Passar aos alunos pela prática da leitura e escrita como  identificar os elementos estruturais e literários de uma crônica e notícia de jornal. E estudo de conteúdos de gramática a partir desses gêneros textuais.

            Se houver recursos na escola pode-se apresentar uma pintura ou vídeo de uma cena qualquer do cotidiano e pedir que os alunos componham a descrição e narração do fato em forma de crônica e em forma de notícia (texto jornalístico). E houver uma eleição das melhores a serem colocadas no mural da escola, e a que for mais votada receber um brinde, uma revista em quadrinhos ou medalha.

            Assistir vídeos que mostrem como funciona um jornal e um telejornal, e o que faz cada um de seus funcionários: redator, noticiarista, repórter, apresentador, arquivista-pesquisador, revisor, repórter-fotográfico, repórter-cinematográfico, diagramador; a diferença entre notícia, noticiário e reportagem, o que seja matéria editorial, manchete, manchetinha, ... E se possível visitar em excursão um jornal e um telejornal, pois: "é lento ensinar por teorias, mas breve e eficaz fazê-lo pelo exemplo" - Sêneca, filósofo romano do século I.

 

2) Metodologia:

            Inicialmente apresentar um texto curto de notícia e outro de crônica em cartaz letras grandes na lousa referindo-se a um mesmo acontecimento e mesmos personagens envolvidos.

            Informar as características de cada gênero e pedir que convertam a notícia em crônica e a crônica em notícia. Como tarefa para casa cada aluno recortar de jornal duas notícias e identificar as suas partes e as perguntas, elementos e respostas. Formarem grupos de cinco, escolherem uma crônica de autor consagrado da literatura brasileira para lerem em forma de jogral à frente da sala de aula.

 *

a) notícia1 (do inglês NEWS - North, East, West, South - as letras iniciais dos 4 pontos cardeais): é a comunicação ou informação de um fato, em geral fora da rotina costumeira de uma coletividade, empregando para buscá-lo e compô-la a técnica jornalística; o repórter caçando fatos interessantes e vendáveis do cotidiano procura responder a sete perguntas:

PERGUNTAS

ELEMENTOS

RESPOSTAS (DADOS)

QUEM?

Personagens

José da Silva e Ana, e o Arnaldo

QUÊ?

Fato

Suicidou-se o José da Silva, esposo de Ana

QUANDO?

Data

Ontem às 19:36 h, um dia frio, nublado, e triste

ONDE?

Local

Rua dos Desiludidos, 46 - Vila dos Cornos e Abandonados

COMO?

Modo

Um tiro no ouvido, bem ao segundo em que constatou a perfídia

POR QUÊ?

Motivo

Desconfiança de traição confirmada

PARA QUÊ?

Objetivo

Fugir da vergonha e da dor pela perda da amada infiel

 

            Para atrair a atenção do leitor a notícia deve apresentar certas qualidades: ser nova (o novo atrai mais a atenção), verdadeira (falsa notícia diminui a credibilidade, desacredita o noticiante perante o leitor), interessante (quando atrai o maior número possível de leitores), importante (quando agrada ou influi no comportamento de uma coletividade ou grupo de leitores).

            Tendo obtido os dados o jornalista compõe o texto da notícia em três partes:

            i) um título: este é o anúncio da notícia, resumidamente apresenta o principal do acontecimento a ser noticiado: SUICIDOU-SE ONTEM O COMERCIANTE JOSÉ AO VER A ESPOSA NOS BRAÇOS DE OUTRO.

            ii) cabeça ou lead: sumário do fato e o clímax da ocorrência não importando a ordem cronológica, pode escolher a resposta ao fato que lhe parecer melhor para a veiculação do comunicado noticioso:

            "Desconfiando que sua mulher, Ana Rosinha, o traía com um vizinho (o Arnaldão), José da Silvia, residente na Rua dos Desiludidos, 46, suicidou-se, ontem, com um tiro no ouvido."

            iii) corpo: é o desenvolvimento da cabeça ou lead esmiuçando os detalhes em ordem cronológica crescente, descrescente, ou em forma mista. Tanto aqui como na lead pode-se usar de veracidades sóbrias e claramente expressas ou de hipérboles ou exageros em relação ao fato e emoções relativas a ele de modo a transformar a mensagem límpida e objetiva num subjetivismo interpretativo sensacionalista. Ou seja, se reportagem expositiva limita-se à narração simples e objetiva do fato. Sendo interpretativa inclui maiores esclarecimentos para a melhor compreensão do assunto. E se for opinativa além de expor a notícia e interpretá-la nas suas características procurará subjetivamente opinar, orientar e dirigir a opinião do leitor ou do público, neste caso poderá descambar ao sensacionalismo ou adredemente movimentando a massa para uma idéia ou convicção ideológica.

            Exemplo: "Chegando em casa, estafado do seu dia operoso de trabalho, eram 18 horas e 26 minutos de ontem, o senhor José da Silva, segurança de uma fábrica de peças íntimas femininas, encontrou a esposa já banhada, perfumada e apressada a sair para o culto religioso. Disse-lhe que a janta estava nas panelas para ser requentada no microondas e saiu dando-lhe um beijo ligeiro na face. José custou a crer na possibilidade da sua senhora estar-lhe sendo infiel, e chegou a pensar que a animação de Ana se devia ao fervor religioso e às amizades do grupo onde se reuniam. Porém, alguns bilhetes anônimos inculcavam a sua mente, resolveu apenas tomar um copo de leite e uns três biscoitos e foi-se ao encontro dela igualmente a assistir ao culto daquela noite, ontem, que se iniciaria às 19:30 horas numa travessa da rua de sua casa à altura do número 1259. Aproximando-se viu que ela e o vizinho conhecido como Arnaldão fugiam furtivamente do culto e se dirigiram para a rua dos Apaixonados onde havia a pouco tempo ali se instalado um motel para encontros fortuitos de enamorados. Seguiu-os, e antes que entrassem adentro ao prédio vermelho ilumado presenciou a cena que aos seus olhos em desespero marcou e quebrou algo como num estalo dentro de si. Em choque, transtornado, envergonhado do que diziam os vizinhos já a algum tempo de si, em dor pela perda de sua esposa que estava grávida de dois meses e não sabia mais se o filho era seu ou daquela relação pérfida, vendo-os beijarem-se em sorrisos de fogo de paixão e conversas de abrasamento pela antecipação do conluio copular e orgasmos mútuos, talvez até piadas de cornos estariam a contar entre si e sobre a sua pessoa achincalhada, resolveu, ali mesmo debochar da vida, sacou a arma metida à cintura, apontou ao ouvido direito, disparou. Ambos a não muita distância ouviram e correram ao ajuntamento de curiosos em torno ao cadáver caído àquela noite sem estrelas, nublada, e fria. Notaram satisfeitos o ocorrido. Com um sorriso leve despediram-se e já sonhavam com o casório em breve para uni-los a toda aquela vida. Todavia, com um dom de atriz fingiu-se de aflita, segundo uma testemunha ocular autora dos bilhetes anônimos, e encontrou lágrimas para persuasão oportuna e realização de projetos em a muito agasalhados e somente possíveis após livrar-se do incômodo marido por demais manso e sem ambições."

 

b) crônica2: segundo o volume 1 Para Gostar de Ler - Crônicas, editora Ática, "é um escrito de jornal que procura contar ou comentar histórias da vida de hoje. Histórias que podem ter acontecido com todo mundo: até com você mesmo, com pessoas de sua família ou com seus amigos. Mas uma coisa é acontecer, outra coisa é escrever aquilo que aconteceu. Então você notará, ao ler a narração do fato, como ele ganha um interesse especial, produzido pela escolha e pela arrumação das palavras. E aí começa a alegria da leitura". Entre os autores escolhidos, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade. Este, abaixo vai uma sua crônica literariamente jocosa transmitindo emoções no jogo das palavras e diálogos:

 

Depois do jantar

 

                                                                                  Carlos Drummond de Andrade

 

            Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.

            O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.

            — Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?

            — Não fumo, respondeu o outro.

            Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:

            — 9 e 17... 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.

            — Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.

            — Como?

            — Já disse. Vai passando o relógio.

            — Mas ...

            — Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.

            — Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.

            O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.

            — Agora posso continuar?

            — Continuar o quê?

            — O passeio. Eu estava passeando, não viu?

            — Vi, sim. Espera um pouco.

            — Esperar o quê?

            — Passa a carteira.

            — Mas...

            — Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?

            — Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina.
Ainda não acabei de pagar...

            — E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?

            — Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.

            — Diga.

            — Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.

            — Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?

            — Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?

            — É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado,
manja?
            — Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.

            — Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.

            — Não precisa, não precisa.

            — Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.

            — Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.

            — Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?

            — Claro.

            — Você, o assaltado. Certo?

            — Confere.

            — Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.

            — Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.

            — Tá bom, não se discute.

            — Vamos, procure nos... nos escaninhos.

            — Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.

            — Deixe ao menos tirar os documentos?

            — Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.

              Nem uma de quinhentos? Uma só.

              Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.

              Nem eu ia aceitar dinheiro de você.

            — Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.

            Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.

(Texto extraído do livro "Os dias lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág. 54.)

            Critérios de seleção do conteúdo ou textos: validade (de confiança, representativos, atualizados), utilidade ou intenção pragmática (aluno puder usá-lo no ambiente onde vive), significação (relacionado às experiências do aluno de modo a interessá-lo), viabilidade (dentro das limitações de tempo, recurso, e nível de compreensão da classe), possibilidade de elaboração pessoal (o próprio aluno ser capaz de avaliar e criticar o conteúdo), flexibilidade (estar sujeito a alterações conjunturais - de momento pedagógico).

            Organização do conteúdo: Um critério é mobilizar as melhores cabeças sobre a disciplina e começar pelos princípios básicos, as idéias fundamentais da matéria a ser ensinada e despertar interesse, mostrar que o assunto é valioso, utilizável pelo aluno em outras situações além da escola. Por esse critério, lógico, baseado na estrutura da própria matéria, selecionar e organizar o conteúdo seria função de um especialista e não de um professor, principalmente um iniciante, porém, o mestre lendo e estudando em várias fontes sobre o conteúdo a ensinar é de pensar-se que adquira essa capacidade de instrumentalizar-se para a seleção e organização do conteúdo a ser ministrado em sala de aula. Pois se tiver comunicação e desenvoltura à frente de alunos e não ter conteúdo ou material preparado, roteirizado a passar, será tão-só um artista fazendo um show teatral de representação professoral (em brincando de ensinar) e bem humorada oratória oca para divertir e manter a atenção de uma platéia a pensar que está aprendendo.

            Pelo critério psicológico o conteúdo seria disposto segundo o "nível de desenvolvimento intelectual ou cognitivo do aluno [Piaget, Freud, Vygotsky, Bandura] (...) e na ordem em que se realiza a experiência da criança"; primeiro [nível mais concreto-manipulativo, sensório-motor] aprende a fazer coisas, succionar o leite, caminhar, falar, comer com colher, brincar; segundo [pré-operatório, operatório-concreto], observando experiências alheias, por informação atrelada à sua atividade geral; terceiro [operatório-formal; aqui neste ponto aplicando o critério lógico de organização de conteúdos, acima nocionado, ensinagem mais racionalizada, sistemática], por enriquecimento e aprofundamento de conhecimentos já adquiridos".

            O desenvolvimento cognitivo de um jovem da 6a. série ou acima já está suficientmente maturado para o uso de critério lógico de organização de conteúdos, suavemente introduzido e indo a complexando (já encontra-se em nível abstrato-conceitual).

            Para Claudino Piletti, Didática Geral, Ática: primeiro "é preciso selecionar as informações e saber como e onde adquirir novas informações quando estas forem necessárias", e o "tipo de conteúdo, ou seja, o que é mais importante que o aluno conheça". (...) "Os objetivos é que devem dar uma direção aos conteúdos". (...) "Conteúdo não abrange apenas a organização do conhecimento [dados, fatos, conceitos, princípios, ...], mas também as experiências educativas no campo desse conhecimento [experiências que o aluno vivenciará na ensinagem].

 

3) Desenvolvimento ou roteiro de aula:

            (a ser desenvolvido pela mestra ou mestre conforme critérios e experiências pessoais)

 

I) conteúdos conceituais (“o que se deve saber?”): diferençar crônica de notícia de jornal.

 *

II) conteúdos procedimentais (“O que se deve saber fazer?” ): compor uma crônica ou uma notícia de jornal a partir de um fato presenciado inusitado e interessante ou que possa ser transformado literariamente como uma narração interessante. Por exemplo, o aluno viu o cachorro da escola pegar a bola que lhe veio à boca e correr. E então escreveu a seguinte pequena crônica:

         Olá a todos! Hoje vi algo muito interessante, e vou contar a vocês...

            Rex é o cão da escola. Estava deitado no cimentado sossegado. Na quadra um garoto chutou a bola e ela desviou torta e veio parar junto... ao... Au-au. Rex é um canzarrão manso mas pelo tamanho é de se temer. Pegou a bola. Os meninos vinham em sua direção. Rex correu. Eles correram atrás de Rex.

            - Vem Rex!

         Rex é bem grande. Quem pega Rex?

         Quem tira a bola da boca do Rex?

 *

III) conteúdos atitudinais ( “Como se deve ser?”): liberdade de expressão e interpretação, respeito aos pontos de vista diferentes quando reunidos em grupos para preparação de apresentação oral de jograis construídos a partir de textos escolhidos. Respeito aos colegas que proferem a leitura da crônica escolhida.

 

4) Conclusão: Em quatro horas de aula intensiva e em duas aulas espera-se que os alunos suem bastante e absorvam sobre o que seja crônica e o que seja notícia de jornal ou texto jornalístico.

 

Bibliografia:

 

1. NORBERTO, Natalício. "Jornalismo para principiantes". Rio de Janeiro, Ediouro - Ed. Tecnoprint, 1978.

2. TAKAHASHI, Jiro. "Para gostar de ler, volumes 1-2-3-4 - Crônicas de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. São Paulo, Ática, 1981.

 

 
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