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O Processo de Laicização da palavra "Mágico-Religiosa"
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O Processo de Laicização da palavra "Mágico-Religiosa"

Introdução

O processo de laicização da palavra não ocorreu de imediato. Houve um longo caminho percorrido por aqueles que se dedicavam à sabedoria, ou ao menos ansiavam por adquiri-la.
A palavra é o “objeto” de disputa, possuí-la significa poder de persuasão, domínio. Como pode-se observar na figura do reie do poeta, caracterizando pois, um quando de “palavra mágico-religiosa”, cabido às pessoas excepcionais. Ao mesmo tempo em que observa-se o concretizar desta situação, percebe-se que por outro lado, há ocorrência de uma laicização, ou secularização da palavra em algumas instituições, como as assembléias guerreiras da Grécia arcaica.
A laicização por sua vez, implica na democratização da palavra, no surgimento de uma retórica, portanto no direito de expressão e consequentemente na destruição da palavra mágico-religiosa. Todavia, estes acontecimentos acarretam conseqüências cujo, culminarão na palavra-diálogo, onde quem possui o domínio da expressão e do bem falar, possui a capacidade de persuadir e de convencer, aludindo desta maneira, a uma primeira forma de sofismo.
Entretanto precisa-se para compreender o processo de laicização, conhecer e compreender o caminho que a ele conduziu, de forma que este breve estudo, a isso objetiva realizar.


O PROCESSO DE LAICIZAÇÃO

Por mais absoluto que seja as influências da palavra mágico-religiosa, alguns meios sociais parecem que escaparam de sua influência aderindo assim, a palavra diálogo. Nota-se que a palavra mágico-religiosa, opõe-se a palavra diálogo. A palavra mágico-religiosa é eficaz, intemporal, inseparável das condutas e valores simbólicos. É um privilégio de um homem excepcional. Já a palavra diálogo é laicizada, ou seja, a diminuição ou extinção da influência religiosa. É complemento à ação, inscrita no tempo, provida de uma autonomia própria e ampliada às dimensões de um grupo social. Este grupo social é formado pelos homens especializados na função guerreira, que tinham privilégios, no qual esses privilégios mais tarde são expandidos ao cidadão da cidade. Vai da época micênica até a reforma hoplita.
No plano das estruturas sociais os guerreiros ocupam um lugar central e excepcional. Não abrange mais o grupo familiar do que o territorial. São divididos em classes etárias e grupos dos em confrarias não estão ligados por laços de sangue e sim, por contratos. Por outro lado, os guerreiros se singularizam por comportamentos e técnicas de educação. Os guerreiros são submetidos a provas iniciatórias que asseguram sua qualificação profissional, consagram sua promoção social e definem a vocação à morte, o que os distingue dos vivos. Fazem práticas institucionais: jogos funerários, divisão do butim e as assembléias deliberativas. Nota-se até aqui, a ausência da palavra mágico-religiosa.
Jogos funerários: após alguma guerra, os objetos dos mortos, entre eles: bacias, tripés, cavalos, mulas, cabeças de boi, prisioneiras de belas cinturas, ferro e cinza. Eram depositados no centro da assembléia... Desenrolam-se então os jogos, entre eles, a corrida de carros. No final o vencedor ficava com os prêmios.
Mas afinal, qual é o valor do ponto central? Para definir o valor do centro nesse contexto de jogos, é preciso fazer referência à partilha do butim que é aonde cada combatente faz o seu butim individual, colocando-o após no centro, porque é o ponto mais a vista da assembléia. No centro, porque é o lugar reservado a uma “bela presa” que faz parte do butim da guerra dos aqueus, estes são destinados à partilha, “as coisas postas em comum”. Após cada pilhagem, e a cada vitória o butim retorna às mãos do
chefe, às mãos daquele que representa a coletividade, “o rei distribui pouco, mas fica com muito”. Um dos gestos mais característicos do episódio dos jogos é de fato a tomada de posse dos prêmios. Tudo o que é depositado no centro torna-se objeto comum. E aí o homem designado pelos Deuses virá recolhê-lo.
Temos um exemplo, no canto XIX da Ilíada, quando Agamenon confessa de ter errado e oferece a Aquiles seus bens. Esse fato é colocado em público, como propusera Ulisses, justificando que é de exigência do público que se coloque em plena assembléia. Pois assim todos os povos chamados Aqueus, poderiam verificar o ato de correção e assim o próprio Agamenon ficaria aliviado de seus atos. Entre os bens dispostos, está à bela mulher Briseida.
Nas assembléias militares, o uso da palavra obedece a regras definidas que conferem às deliberações da Ilíada uma forma institucional muito marcada. Tomar a palavra implica dois comportamentos gesticulares: avançar até o centro, por um lado, tomar o cetro à mão, por outro.
No ato de reconciliação, Agamenon não se levanta, fica lá mesmo no seu lugar, ele responde a Aquiles de lá mesmo, sem dispor-se no meio da assembléia. Isso o poeta coloca como um fugir da regra uma exceção. Pois era de regra. O fato de ir ao centro e tomar à mão o cetro confere ao arauto a autoridade necessária para falar. O cetro parece simbolizar a soberania impessoal do grupo, e falar no centro é tratar daquilo que confere ao grupo, especialmente assuntos militares.
Dentro de mais um determinado trecho, Telêmanco diante da Assembléia, pede desculpas por não ter tomado a palavra no sentido de tratar de assuntos de todo o grupo. Isso demonstra que tratar ali de assuntos pessoais é incongruente. Portanto, nessas assembléias, partilha do butim, nos jogos funerários, requer necessariamente que sejam em comum a todos. (O resultado das provas é proclamado diante da assembléia, que elabora a ata da sentença e lhe confere eficácia jurídica). Então o centro confere ao olhar de todos, em comum a todos. Assim podemos perceber o contexto institucional em que permite distinguir a essência da Palavra-diálogo.
Este processo institucional e quadro mental permitem distinguir os traços essenciais da palavra-diálogo. Pois de fato, os guerreiros nesta fase, sabem muito bem emitir opiniões, possuem o direito da palavra, de forma que não é mais somente um
privilégio de um homem excepcional, dotado de poderes religiosos, como se averiguava no estágio caracterizado pela palavra mágico-religiosa .
As assembléias são abertas aos guerreiros, aos que exercem oficio de armas, como se atesta nos costumes das cidades gregas arcaicas. Costumes esses, valiosos, pois esclarecem um aspecto essencial da palavra nos meios guerreiros.
Quando Políbio, fala do privilégio da palavra nos meio guerreiro macedônico, fala de sua igualdade de Verbo . Ou seja, igualdade de expressão que marca as assembléias guerreiras, mais precisamente a instituição militar, dos “banquetes iguais” .
Nas assembléias guerreiras, a palavra é Bem Comum, entregue no centro da assembléia. Cada um apropria-se dela com a concordância dos demais.
A palavra-diálogo, de caráter igualitário é verbo dos guerreiros é também laicizado. Não é uma palavra mágico-religiosa.
A palavra, instrumento de diálogo, não mais obtém sua eficácia no jogo de forças religiosas, que vão além do homem. Agora, está fundamentada no grupo social que manifesta aprovação ou desaprovação. È nas assembléias militares que pela primeira vez, a participação do grupo social funda um valor de uma palavra, este valor por sua vez é a palavra-diálogo. Neste momento se prepara o futuro estatuto da palavra filosófica, da palavra que se submete à publicidade e que tira sua força do assentimento de um grupo social. Surgem também as noções de Paraíphais, que designa a persuasão que nasce da convivência, o Oaristus, que significa a influência recíproca que engendra o comércio íntimo do companheirismo, e o Parégoros que qualifica a palavra alentadora que exorta ao companheirismo de armas. Esses termos delimitam o campo da persuasão, pois aquele que sabe emitir bem sua opinião sabe se fazer ouvir, ganha assentimento.
Nas assembléias militares, a palavra é um instrumento de dominação sobre o outro, é uma primeira forma de retórica.
Na classe guerreira, mais nova instituição grega, se esboça algumas concepções essenciais do primeiro pensamento político dos gregos, o ideal de Isonomia,
representação de um espaço centrado e harmonioso, onde ocorre a distinção entre interesses pessoais e coletivos. Isonomia resume-se, portanto em semelhança, centralidade e ausência de dominação unívoca, designando a imagem de mundo humano onde “aqueles que participam da vida pública fazem-no na qualidade de iguais”.
Jogos Funerários partilha do butim, assembléias deliberativas, instituições que formam um plano de pensamento pré-político. O poema de Alceu do século VII a.C permitiu saber da existência de um grande santuário chamado Méson, então mesa. Onde se reuniam os guerreiros para as reuniões.
Através das deliberações da classe guerreira, como por exemplo, ocorria no Méson com os lésbios, que se forja a oposição capital no vocabulário das assembléias políticas, entre os interesses coletivos e os interesses pessoais. Submeter a conduta a se seguir, diz-se “depositar o assunto no centro”. Como o poder, o assunto em debate, a questão que diz respeito aos interesses do grupo é depositada no “centro”. Mais precisamente, exprimir numa assembléia política significa, “Levar a opinião ao centro”, ou “dizer no centro”. Uma vez fora do centro, do Méson, o orador volta a ser um cidadão privado. Nas assembléias, preparam-se as futuras assembléias políticas da Grécia. É também no mesmo meio social que se elabora a dupla palavra-ação, que permitirá melhor distinguir o plano do discurso e o plano do real.
No grupo dos guerreiros profissionais a palavra-diálogo continuava sendo um privilégio de poucos, dos melhores, o laós. A essa elite opõe-se a massa, o dêmos. O dêmos não ordena, não julga nem delibera: não é bem povo, nem estado. Para que o integrante do dêmos tenha direito a palavra, para que desapareça a fronteira entre esse demos e o laós será necessário que os privilégios dos guerreiros sejam estendidos a todos os membros de um grupo social mais amplo. É a nova organização militar, com a reforma hoplita onde cada combatente é uma unidade intercambiável que propiciará a democratização da função guerreira e consequentemente à aquisição de privilégios por uma parcela maiôs da população. A reforma hoplita, embora baseada em processos tecnológicos, não é de caráter puramente técnico, mas, tem uma abrangência maior: abrange a mudança de mentalidade grega, é a construção de um sistema de pensamento racional que marca uma ruptura com o antigo sistema de pensamento religioso, globalizante.
A passagem do mito à razão não é um milagre, nem a vitória da filosofia, mas, um processo de secularização operado pelas práticas institucionais de tipo político
e jurídico. O advento do pensamento racional é favorecido pela influencia conceitual e técnica da sociedade.
A laicização da palavra se dá através da elaboração da retórica e da filosofia, do direito e da historia. Esse fenômeno tem dupla conseqüência, por um lado a deterioração da palavra mágico-religiosa, por outro lado marca o advento de um mundo autônomo da palavra e da visão dessa palavra como instrumento.
O declínio da palavra mágico religiosa coincide com um momento privilegiado da historia do direito: o pé-direito que representa um estado mental em que gestos e palavras eficazes são fundamentais em todas as operações. As sentenças são definidas mecanicamente, e a função do juiz é apenas ratificar as “provas decisórias”. O advento da cidade grega vem mudar essa situação: ela dá lugar à discussão onde o juiz pode dar o veredicto após ouvir o pró e o contra de uma causa. Declina a autoridade da palavra mágico-religiosa. As decisões do rei já não são “só dele”, mas da maioria do povo. A eficácia dessa palavra converteu-se na ratificação do grupo social. É o ato de óbito da palavra mágico-religiosa.
A palavra dialogo domina: através dela os homens discutem, contrapõe seus discursos. Essa palavra, o logos torna-se uma realidade autônoma, submetida às suas próprias leis. O logos se define tanto como instrumento das relações sociais quanto como meio de reconhecimento do real. Essas duas fases do logos, são exploradas pela retórica, sofistica e pela filosofia, respectivamente.
Essa dupla reflexão acerca da palavra da linguagem como instrumento, desenvolve-se no quadro geral de um pensamento racional. O que acontece com a verdade “(alethéia) nesse contexto”. Qual o seu conteúdo semântico nesse processo de secularização da palavra? Há duas respostas: a das seitas filosófico-religiosas, da sofistica e da retórica. Na primeira resposta, alethéia, se torna o ponto cardinal. Na segunda, retrocede e dá lugar a apáte. Alethéia é, pois, realmente o centro de uma configuração de potencias religiosas que possuem entre si relações necessárias.


Conclusão


Com base no que foi apresentado até aqui, pode-se concluir alguns pontos, apresentados a seguir.
Sobremaneira, pode-se dizer que a laicização da palavra mágico-religiosa na sociedade grega, e o conseqüente prevalecimento da palavra-diálogo, são o fim de um processo, mas que esse processo não aconteceu separado da própria sociedade grega, estando, em sua origem, fundado nela mesma: como visto, já existiam manifestações da palavra-diálogo na instituição militar quando a palavra mágico-religiosa imperava.

Ou seja: o processo de laicização aqui referido não é algo que se deu de imediato, por imposição, por assim dizer, de uma força que não a própria vontade ou necessidade do "povo" grego (entenda-se aqui "povo" no sentido de uma sociedade aristocrata).


A laicização da palavra, vista como uma necessidade social grega, encontrou espaço para se estabilizar na instituição militar devido à organização da estrutura dessa instituição. Nessa organização, os homens entendiam-se tendo como base o diálogo, e não algum ritualismo religioso, o que caracterizaria a palavra mágico-religiosa: haviam problemas concretos, de interesse comum dos soldados, sendo que esses problemas necessitavam de uma deliberação em comum, em torno de um centro em comum, para serem resolvidos (como no caso das divisões do butim ou dos jogos funerários, por exemplo).

Essa função da palavra-diálogo na instituição militar grega se caracterizava por abranger técnicas de persuasão, numa forma primitiva de retórica; e por um pensamento pré-político, embora sendo uma política “dos melhores”(laós). Essas características iriam influenciar a sociedade grega, no processo de laicização da palavra, com a reforma hoplita.

Na reforma hoplita, têm-se mudanças tanto técnicas quanto mentais na sociedade grega, numa certa busca por racionalidade nesses âmbitos. Essa busca por racionalidade se caracterizaria, afinal, por encontrar maneiras de se resolver problemas de uma forma controlada, diga-se, segundo a necessidade da própria sociedade e não segundo alguma determinação mitológica, que não podia resolver problemas de uma maneira prática mas tão somente muito globalizante: mito e razão não poderiam coexistir. A palavra-diálogo, que favorecia à razão, venceria a palavra Mágico-religiosa, pertinente à mitologia.

O fim do processo de laicização da palavra se dá no momento em que são elaborados alguns instrumento para a resolução dos problemas de uma maneira prática. Tais instrumentos são a retórica, a filosofia, o direito e a história. Nessas ciências a palavra só é aceita num âmbito racional, portanto, a palavra mágico-religiosa não será mais aceita. O que essas ciências precisam é de uma palavra que lhes sirva de instrumento para a resolução dos problemas. Tal palavra será a palavra-diálogo, que se tornará, através dessas ciências, tanto um instrumento de determinação das relações sociais quanto instrumento de conhecimento da realidade.

A palavra-diálogo, assim, impera como o instrumento para a solução de problemas de uma maneira prática, como o problema de se determinar o que é a verdade (Alethéia). Tal solução, segundo alguns pensadores gregos, será única; mas segundo outros será múltipla. De qualquer forma, a palavra-diálogo será, diga-se, válida , pois será, como era na instituição militar grega, uma maneira racional de se procurar a verdade.


Referência:

DETIENNE, Marcel. O processo de Laicização. In: Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, trad. 2003. cap. 5, p. 45-55.

Autores:JOEL HEIZEN, JOSÉ FAUSTO, JÚLIO CÉZAR HAMES, MAIKOL HUDY REIBERG

 
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