Ajude a manter o TextoLivre.

O que é o Gaúcho

INTRODUÇÃO

 

 

 

 

Este trabalho tem como objetivo fundamental o de mostrar dois tipos distintos a respeito da imagem do gaúcho.

O enfoque principal deste trabalho recai sobre o gaúcho romântico ou literário, sendo apresentado o gaúcho histórico a fim de ressaltar as diferenças entre os dois temas.

A escolha deste tema, surgiu por um interesse maior de procurar esclarecer alguns conceitos que até o momento ainda encontravam-se  obscuros, tentando mostrar com isso a diversificação com que se estruturou a história do homem do Rio Grande do Sul, suas crenças e seus costumes.

Neste sentido, surgiu uma série de questões que nortearam nosso estudo. Qual a origem da dança típica do  RS? Até que ponto o gaúcho histórico se enquadra nos padrões atuais? Como se deu o surgimento do tradicionalismo no RS? Quais os períodos importantes que melhor definem a origem do traje do gaúcho? Qual a função do MTG no cenário tradicionalista do RS?

 

Nossas hipóteses são as seguintes:

A origem das mais antigas danças populares brasileiras está escondida na Espanha dos séculos XVII e XVIII e a origem imediata das danças mais antigas se encontra nas velhas danças brasileiras.

4

 

Estas também sofreram influências do minueto que veio da Corte de Luiz XIV, da Inglaterra com Coutry dance e por último a valsa, todas fazem parte de um processo de formação das danças gaúchas.

Este gaúcho é peão das estâncias do interior do Estado, é o homem simples que continua apesar da modernidade, com os costumes de antigamente sem se preocupar e enquadrar-se no padrões atuais. Não se deixando levar pelo que acontece com o gaúcho das cidades grandes, que por estar em constante evolução vão perdendo seus princípios.

Surgiu primeiramente em Montevidéu no Uruguai, uma associação a “La Criolla” para defender valores culturais que estavam ameaçados de desaparecer pelo modernismo. Assim João Cezimbra Jacques, um estudioso que conhecia a vida nos campos, quando soube deste fato em companhia de antigos idealistas fundou o Grêmio Gaúcho, com o mesmo propósito, sendo assim a primeira tentativa de enraizar o tradicionalismo no  estado.

A vestimenta tradicional do gaúcho possui dois períodos distintos, o primeiro, pelo uso do chiripá e outros complementos que se estende aproximadamente até a Guerra do Paraguai e o segundo, a partir deste período, pela generalização do uso da bombacha.  

O MTG tem a função de coordenar as atividades tradicionalistas no estado, é responsável por uma maior disciplinação do uso adequado das pilchas, visando sempre uma maior consciência tradicionalista.

No decorrer do texto serão desenvolvidos estudos para salientar as criações e a memória passada, dos quais vão constar assuntos relacionados aos hábitos, costumes, origens e definições das danças e dos trajes do gaúcho.

Este texto científico compreende três capítulos, dos quais desenvolve-se os conteúdos de forma simples e objetiva, cuja pesquisa é bibliográfica.

5

 

O tipo de bibliografia utilizada leva em conta o contexto historiográfico, literário passando pelo modo de como as obras de  autores tradicionalistas idealizaram a história do Rio Grande do Sul.

O primeiro capítulo, vai nos proporcionar um melhor conhecimento no que se refere a formação geográfica do Rio Grande do Sul, o desenvolvimento histórico com a ocupação do território riograndense, que já era habitado por povos indígenas, o desenvolvimento da sociedade, economia, política, todos atrelados a um entrelaçamento de etnias que ajudaram a formar a sociedade do Rio Grande do Sul.

No segundo capítulo, vamos nos ater ao gaúcho histórico. É através do relato dos viajantes que por aqui passaram no início do século XIX, do qual estes escreveram em suas obras, o cotidiano do gaúcho, seus hábitos, costumes, danças e indumentária. Neste capítulo foram utilizadas obras de autores como: Saint Hilaire, Nicolau Dreys, Avé-Lallemant, incluindo a de alguns historiadores dos quais citamos, Moacyr Flores, Salvador Lamberty e Raul Annes Gonçalves como sendo as obras importantes, para um melhor entendimento deste tema.

Moacyr Flores em sua obra “História do Rio Grande do Sul”, estabelece uma visão ampla dos acontecimentos históricos no Brasil meridional, através da influência da análise crítica das danças ocorridas, traçando as relações entre as diferentes épocas e os acontecimentos. Destina-se a estudantes e ao público em geral por sua linguagem simples e inteligente, sem vícios de retóricas acadêmica ou teoricismos.

O autor é conhecido historiador e pesquisador de PUCRS e UFRGS, com trabalhos publicados em revistas especializadas, e participação em congressos nacionais e internacionais.

6

 

Salvador Ferrando Lamberty escreve sua obra “ABC do Tradicionalismo Gaúcho”, para expressar de forma simples e objetiva fatos  comuns no que se refere ao tradicionalismo gaúcho.

O autor participou ativamente dos meios tradicionalistas das cidades em que passou.

Iniciou sua trilha tradicionalista como integrante do corpo de danças folclóricas do CTG Negrinho do Pastoreio, de São Francisco de Assis, onde foi membro de duas patronagens. Participou como jurado de diversos festivais nativistas, rodeios e festas campeiras. Publicou os livros de poesias: Caminhos da Querência e Tropilhas de Longe. É um pesquisador das coisas do nosso pago.

Raul Annes Gonçalves a partir da publicação de “Mala de Garupa”, com uma obra grandiosa em informações práticas, didáticas e tipicamente gauchesca, destinada a ocupar posição no âmbito da literatura regionalista.

O autor apesar de viver na Campanha, aprendeu a ler com facilidade o francês e o inglês, prazer literário que ainda cultiva. Sempre achou tempo para escrever sobre a vida gaúcha.  Nos jornais “Correio do Povo “, de Porto Alegre e “Platéia”, de Livramento divulgou retratos fiéis da vida rural onde vivia há mais de meio século, enfrentando a luta inglória de vencer as diversas crises que castigaram a pecuária.

 

As crônicas no presente volume contam ao leitor amigo das tradições como vivia o gaúcho antigo.

O terceiro capítulo, este como enfoque principal vai mostrar o gaúcho romântico ou literário.   Este   padrão   romântico,   ao   buscar  o tipo característico da origem riograndense,

 

7

 

homogeneizou a sociedade na identificação de um símbolo, de natureza livre, nobreza de sentimentos e exemplo de coragem formando uma imagem mítica do gaúcho.

...a imagem mítica do gaúcho quando inserida no tempo histórico de sua elaboração possibilita  identificarmos diversos significados do imaginário de determinada realidade” (Albeche, 1996, p. 144). 

Serão citados ao longo deste capítulo diversas obras tanto de cunho literário, quanto histórico, para nos darem um noção mais aprofundada sobre os hábitos, costumes, danças e indumentária do gaúcho.

Através de uma extensa bibliografia tradicionalista abordaremos as tradições, costumes, as danças e a indumentária segundo os padrões tradicionalistas. Estes padrões dos quais foram pesquisados e desenvolvidos por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, dois importantes tradicionalistas, e pesquisadores, que saíram em viagem por vários lugares, tanto, dentro como fora do Rio Grande do Sul para poderem fundamentar suas pesquisas.

O capítulo é concluído com outro fato importante, que diz respeito a criação dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) “...iniciamos em Porto Alegre, em agosto de 1947, o movimento ginasiano de proselitismo de todas as camadas sociais e de todos os segmentos étnicos em favor das tradições gaúchas, integradamente à cultura brasileira”. ( Côrtes e Lessa, 1975.p.87).

Estes Centros de Tradições Gaúchas, segundo os tradicionalistas são verdadeiros templos para a preservação da cultura idealizada ao  gaúcho, e preservam suas características contra o modernismo. É o MTG que procura coordenar estas atividades tradicionalistas, sempre visando uma maior integração tanto aos que vivem no Rio Grande do Sul, mas também aqueles vindos de fora  e que tem vontade de participar da nossa cultura tradicional.

8

 

Para a elaboração deste trabalho foi seguida a corrente denominada “Nova História”, com ênfase na História das mentalidades.

Segundo Jacques Le Goff, este de uma forma objetiva e sucinta nos mostra que a História das Mentalidades, procura conhecer os fatos históricos e analisá-los mais profundamente. Para isso, então muitas vezes se torna necessário ir ao encontro de outras ciências sociais.

Os objetivos de estudo da Nova História em determinado grupo social seria o de estudar seus ritos, crenças, hábitos, a fim de desvendar seu interior, o que leva a agir dessa ou daquela maneira. As atitudes e comportamentos são essenciais ao seu estudo. 

“Porém, mais ainda que facilidades de relações que procura com outras ciências humanas, a atração da história das mentalidades provém sobretudo da mudança de idéias...”(Le Goff, 1988, p. 170).

A história das Mentalidades procura estudar  a maneira de sentir de um grupo de pessoas, de um povo, tanto que foi modificando-se até transformar-se em uma nova maneira de se pensar história.

Podemos aprender com as mentalidades o cotidiano, o inconsciente, estudar o coletivo, pois  a  cada  dia  que  passa as pessoas estão se esquecendo do passado e que este faz parte de nossa história.

 

“Assim, o passado, o tempo de diferença, se aproxima de nós, tornando-se cada vez mais difícil ignorá-lo... As diferenças de todas as idades nos assediam, contudo nossa percepção ingênua, imediata,  continua sempre sendo de nosso próprio presente, único ponto de ancoragem do tempo. A recente aproximação entre presente e passado não será a verdadeira razão da história das mentalidades?” (Le Goff, 1988, p. 173).

 

 

9

 

Para o historiador das mentalidades, não importa o tipo de documento, todas as fontes inclusive objetos mais simples são passíveis de estudo.

Jacques Le Goff ao escrever sua obra “A História Nova” nos mostra que se deve analisar as transformações sociais através de suas mentalidades, porque: “Certas coisas, portanto, eram combatíveis, aceitáveis, em determinada época, em determinada cultura, e deixavam de sê-lo em outra época e numa outra cultura”. (Le Goff, 1988, p. 173).

Os documentos literários, históricos, artísticos e cartas não oficiais, são fontes privilegiadas da história das mentalidades. E são essas fontes que vão preservar elementos muito importantes da cultura do Rio Grande do Sul como: a música, a indumentária, as danças, etc.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1- HISTÓRICO

 

 

A formação geográfica do Rio Grande do Sul vai nos dar uma idéia de como o homem reflete, em sua personalidade psicológica, os aspectos fisiográficos da terra da qual escolheu para viver.

O Rio Grande do Sul, é o mais meridional dos Estados do Brasil, ocupa atualmente uma grande superfície de terra, num total de aproximadamente 282.480 quilômetros  quadrados, constituídos de terras férteis, próprias para a agricultura e favorável à criação de grandes rebanhos.

Faz divisa ao norte, com o Estado de Santa Catarina; a leste, com o Oceano Atlântico; a oeste com a República Argentina; e ao sul com a República Oriental do Uruguai.

Sua geografia é bem distinta, formada por planícies extensas, montanhas, planalto meridional, cerros, “canyons”, rios, lagos e praias extensas, tudo disposto no interior de um território em forma de um losango irregular.

Quanto ao relevo este apresenta-se ao norte muito acidentado, onde encontra-se as maiores altitudes. Daí para o sul, o relevo vai perdendo altura da mesma maneira para o oeste, no qual vai desdobrando sua superfície em pequenas elevações, algumas em forma  arredondada e outras alongadas formando assim as “coxilhas”. Estas são revestidas por

 

11

 

grandes campos ao sul da depressão central, formando o relevo característico dessa parte territorial rio-grandense.

A leste, se encontram as praias com extensão aproximada de 600 quilômetros de areia, área de solo relativamente pobre, que pela  ação dos ventos, vai formar cômoros e dunas em toda a sua extensão. Beirando a costa aparecem a lagoa dos Patos e a Mirim, que estão entre as maiores do Brasil. 

O clima é ameno, chega a ser comparado ao clima europeu ocidental. Durante as quatro estações do ano as temperaturas sofrem algumas diferenciações sensíveis. Invernos frios mas agradáveis em todo o território, com eventual ocorrência de temperaturas baixas. Os ventos que sopram dos quadrantes Oeste e Sudeste, levam o nome de “Minuano”, seco e frio, vindos da banda oriental, onde é chamado de “Pampeiro”. O verão é geralmente seco, e pode chegar a temperatura máxima acima de 36o C.

Com relação as chuvas, estas distribuem-se regularmente durante o ano, sendo a estação do inverno a mais chuvosa. Podemos classificar este clima como sendo subtropical úmido.

Ao longo de seu território destacamos duas importantes bacias hidrográficas: a do Uruguai e do Sudeste.

A bacia do Uruguai abrange 75% do território que pertence ao Estado. E seu principal rio é o Ibicuí, inteiramente rio-grandense.

E a bacia do Sudeste abrange uma área de 150.000 quilômetros  quadrados, e sua importância decorre do fato de possuir os rios que melhor servem para a navegação, favorecendo com isso o escoamento de produções. Tem como principal rio o Jacuí.

 

12

 

 “A terra riograndense possui condições de estabilidade que asseguram a formação das riquezas, retribuindo largamente o trabalho do homem. Não há notícia dos cataclismos telúricos, que apavoram e danificam, e raras são as secas e as inundações” ( Filho, 1958.p.06).

Dentro destas peculiaridades geográficas se desenvolve a  história do Rio Grande do Sul, que começou bem antes da ocupação do território pelos portugueses. No início o estado era uma “terra de ninguém”, de difícil acesso e muito pouco povoada.

Seus primeiros habitantes foram três grandes grupos indígenas: Os Gês ou Tapuias (onde se encontram remanescentes caiaguangues), que ocupavam a região de cima da serra; O Pampeano (charrua, minuano), que vivia no pampa gaúcho e uruguaio; e o Guaraní, que ocupava o litoral nas margens da lagoa dos Patos e arredores dos grandes rios. Esses grupos indígenas vagavam em liberdade e, vez por outra, apareciam aventureiros que penetravam em seu território para levá-los como escravos.

No início do século XVII, esse quadro foi modificado com a chegada dos padres jesuítas, que chegaram na região e fundaram as Missões jesuíticas. Nelas se reuniam, em torno de pequenos grupos de religiosos, grandes quantidades de índios guaranis.

Para garantir a alimentação desses índios, os jesuítas introduziram o gado em suas reduções. O clima e a vegetação propícios, fizeram com que o gado se  multiplicasse. Com isso a região passou a oferecer outro atrativo aos aventureiros além dos índios, havia também o gado.

Até 1640 várias expedições vindas de São Paulo estiveram no Rio Grande, para capturar    índios   e   gado,   devido   os   holandeses   terem se apoderado das zonas da África

 

13

 

fornecedoras de mão-de-obra negra, provocando com isso uma desestruturação, das missões existentes no Estado.

Ao final do século XVII, devido aos constantes conflitos de fronteira entre Portugal e Espanha, os jesuítas resolveram  concentrar a população indígena convertida em uma área que consideravam, mais segura, e escolheram a zona localizada na região noroeste do Rio Grande do Sul. Foram criados os “Sete Povos das Missões”.

          “ De entrada neste território, trazendo os jesuítas muitos índios  do tronco guarani já submetidos, e catequizando grande número de tapes e minuanos e alguns charruas, fundaram com estes indígenas os Sete Povos das Missões, próximos da margem esquerda do Uruguai e pela maior parte entre os rios Piratini e Ijuí Grande, em diferentes épocas” ( Jacques. 1979, p. 23).

 

Mas a prosperidade desses povos, que funcionavam independente das coroas portuguesa e espanhola, terminou por decretar o seu fim. Em 1750, com o tratado de Madri firmado entre os dois países, estabeleceu-se que a região das Missões passaria à posse de Portugal, em troca da colônia de Sacramento, que havia sido fundada pelos portugueses em 1680 nas margens  do Rio da Prata. Embora tenha havido resistência por parte de padres e índios, as missões foram exterminadas. Mas deixaram um legado que, por muito tempo, seria a base da economia do Rio Grande do Sul: os grandes rebanhos  de bovinos e cavalos, criados soltos pelos campos, que ficaram conhecidos como “Vacaria del Mar”.

Esses rebanhos atrairiam os colonizadores portugueses, e  lagunenses que trouxeram escravos e ferreiros e passaram a se instalar na região de forma continua  a partir de 1726. A descoberta das minas de ouro em Minas Gerais iria, posteriormente, criar uma grande demanda pelo gado da região, consolidando a ocupação do território rio-grandense, começando assim a se formar um importante complexo étnico.

 

14

 

A partir desse momento começam a chegar a região do atual Rio Grande do Sul, o primeiro grupo organizado de povoadores. Vindos da ilha dos Açores, contavam com o apoio oficial do governo, que pretendia que se instalassem onde estavam situadas as missões. Mas as dificuldades de transporte fizeram com que terminassem por se fixar na área onde hoje está Porto Alegre, a capital do Estado.

“Em 1752 o governador Gomes Freire de Andrade, em função do tratado de Madri, resolveu substituir os índios dos Sete Povos por casais açoritas, que inicialmente foram trazidos da ilha de Santa  Catarina, colocados às margens  do Rio Pardo, do  rio Taquari, junto à Vila de Rio Grande e Porto Alegre” (Flores, 1990.p.42).

 

Praticando a agricultura de pequena propriedade, não encontraram, em um território do qual predominavam as estâncias de forma independente, mercado para seus produtos, e tiveram que se integrar a economia voltada a pecuária.

Depois dos açorianos foram os alemães, que a partir de 1824 começaram a chegar no Rio Grande do Sul, sua quase totalidade destinou-se a colonização agrícola.

Essa primeira grande colonização alteraria a ocupação dos espaços, levando gente para áreas até então desprezadas, introduzindo também outras grandes modificações.

 “...a colonização dirigida modificou o sistema de posse e exploração da terra a partir de 1824, aumentando a densidade demográfica através do aglomerado de minifúndios, em contraposição ao deserto humano na área de exploração da pecuária ou de monocultura comercial; que tanto as linhas como as sedes de colônias atingiram os objetivos de povoarem e explorarem a agricultura no Rio Grande do Sul...” ( Flores, 1990. p. 57-58).

 

O Rio Grande do Sul no início do século XIX ainda estava muito  isolado, e era enorme a sua área desocupada. A economia estava centralizada na pecuária. Portanto, os campos eram as zonas escolhidas para a ocupação luso-brasileira que, no entanto, não era muito intensa na região dos campos do Planalto. O Rio Grande do Sul tinha, em zonas

 

15

 

 desabitadas, quase toda a sua metade setentrional, compreende a zona de florestas na planície à margem dos grandes rios que formam o estuário do Guaíba, a encosta nordeste da serra e os matos do Alto Uruguai.

Os colonos enfrentaram muitas dificuldades mas o que realmente interessava era a posse da terra, e isto, eles obtiveram à custa de grandes sacrifícios.

“A energia com que se entregam ao amanho da terra, as novas técnicas que introduzem, as novas espécies que cultivam e a indústria caseira a que são afeiçoados, transformam substancialmente a vida econômica da Província”. ( Cesar, 1970.p.28).

A partir de São Leopoldo as colônias alemães se espalharam primeiro pelas áreas mais próximas, atingindo depois zonas mais isoladas. Geralmente as colônias, principalmente as primeiras, se situavam à beira de rios. Isso tinha uma grande importância estratégica: em uma época em que os caminhos eram muito precários, os rios serviam como “estrada fluvial” para o recebimento de equipamentos e escoamento da produção.

“Prosperaram exatamente aquelas colônias que, melhor localizadas no que diz respeito às possibilidades de escoamento da produção de excedentes, puderam fazer chegar os seus produtos até o centro urbano mais próximo. É de destacar o exemplo de São Leopoldo, que, por ocasião da Revolução Farroupilha, começou a abastecer o mercado de Porto Alegre com o excedente da produção agrícola”( Pesavento, 1992.p.47).

 

 

Na primeira etapa da colonização o governo fez  duas tentativas em locais menos acessíveis, mas ambas falharam. A primeira foi ainda em 1824, quando se decidiu reunir os imigrantes considerados  indesejáveis em São Leopoldo (aqueles que criavam problemas) e enviá-los para ocupar a região das missões. Assim, um grupo de 67 indivíduos foi encaminhado  para  aquela  colônia  de  São  João das Missões. Mas como a viagem era longa,

 

16

 

 muitos adoeceram, ou debandaram e o grupo acabou se dissolvendo, e seus remanescentes sendo conduzidos para São Borja.

A outra tentativa foi feita no litoral, em Torres. Seu objetivo era povoar a zona de mata em Santa catarina e Rio Grande do Sul.

Lá foram estabelecidos dois núcleos a partir de 1826, um  formado de católicos em São Pedro de Alcântara, outro de protestantes em Três Forquilhas. Isoladas, sem poder comercializar sua produção, os dois acabaram por também se dissolver. Os poucos colonos que ficaram na região se integraram à população e cultura da região, enquanto que alguns subiram a serra, indo para a zona de São Francisco de Paula e Bom Jesus.

Mas, de uma maneira geral a colonização alemã obedeceu a uma  ocupação sistemática. Apesar de ter sido interrompida em decorrência da Revolução Farroupilha. 

Esta revolução significou uma pausa de dez anos no desenvolvimento econômico do Rio Grande. Mas, por outro lado, garantiu ao estado um respeito político que nunca antes fora alcançado por qualquer outro Estado além do Rio de Janeiro e São Paulo, onde se encontravam as forças econômicas que governavam o país.

 “O objetivo principal da revolução farroupilha foi a luta pelos princípios liberais contra o autoritarismo político do governo central, inclusive dentro da própria República Rio-grandense”. ( Flores, 1990.p.66).

Em 1875 começam a chegar ao Rio Grande do Sul imigrantes italianos. Embora tenham encontrado um Rio Grande mais organizado economicamente, os italianos tiveram de enfrentar dificuldades semelhantes às vividas pelos alemães.

 

 

17

 

As primeiras colônias criadas na região da Encosta superior que estava desocupada, foram as de Conde D’Eu e Dona Isabel (atual  Garibaldi e Bento Gonçalves), criadas pela presidência da província em 1870, antes que se iniciasse o processo de imigração italiana no Estado. Para ocupá-las, o governo provincial firmou contrato com duas empresas privadas, que deveriam introduzir 40 mil colonos em um prazo de dez anos. Só que por vários motivos não tiveram sucesso.

Somente sob a administração da União, é que chega as primeiras levas de italianos para Conde D’Eu e Dona Isabel. Chegavam cheios de esperança e da mesma forma que os alemães, os italianos tinham que desbravar a terra que adquiriam. Ali plantavam produtos de subsistência, como o milho e o trigo. Mas o cultivo que marcou sua presença no Rio Grande do Sul foi a videira.

No mesmo ano da sua chegada, 1875, foi criada uma terceira colônia esta com o nome de Caxias, no local chamado pelos tropeiros que subiam a serra em direção ao Bom Jesus de “Campo dos Bugres”. Dois anos depois, em 1877, foi criada uma Quarta colônia, a de  Silveira Martins, em terra de mato próximas de Santa Maria.

Essas quatro colônias oficiais foram o núcleo básico da colonização italiana que, a partir dali, em uma primeira etapa, iria se expandir para regiões próximas, que foram ocupadas por colônias particulares, e mais tarde atingiria o planalto. Aos poucos se desenvolveu o eixo básico de industrialização do estado, que liga a capital a Caxias do Sul, esta a cidade-pólo da região de imigração italiana, passando pelo Vale dos Sinos, a região de colonização alemã.

 “No século passado, foram portanto alemães e italianos os pioneiros da agricultura e da industria na Encosta da Serra, mas a sua expansão vai se dar em todos os sentidos”. (Cesar, 1970, p. 29).

18

 

Neste entrelaçamentos de etnias que formaram a sociedade rio-grandense, não podemos deixar de mencionar os imigrantes poloneses, Judeus, Árabes, Japoneses, Franceses, Espanhóis, Portugueses, que contribuíram para o povoamento, e o desenvolvimento sócio-econômico do estado do Rio Grande do Sul.

Com a solidificação deste complexo étnico, foi se estruturando ao longo do tempo a economia riograndense. A partir da experiência com o gado, trazido pelos jesuítas, motivando com isso a criação de estâncias para a criação deste gado xucro, extraindo inicialmente o couro e o sebo para a comercialização. Em 1780 foi criada a primeira charqueada comercial em Pelotas. Aos poucos o charque se tornou o principal produto de exportação do Rio Grande.

Durante o século XIX, a situação econômica do estado passou por uma progressiva transformação. No campo, a diversificação agrícola avança. Novos cultivos, como o arroz, foram introduzidos no Estado. Na década de setenta, a soja teve sua importância levando este produto agrícola ao mercado internacional. A pecuária devido a estas transformações perde a condição de atividade primária única.

“A estagnação pela qual começa a atravessar a economia charqueadora, não consegue vencer a concorrência platina, ao mesmo tempo em que existe  pressão por produtos alimentares na atual região Sudeste do país, são fatores que se aliam para explicar porque o Rio Grande do Sul, da metade do século XIX em diante, começa a desenvolver uma economia agrícola mais ou menos diversificada”. (Fonseca,1983.p.15).

 

 

A atividade industrial, nascida do artesanato dos imigrantes e já mencionadas ao longo do texto, desenvolveram-se em um ritmo crescente.

Mas esse crescimento industrial não significou, o abandono da agricultura. O Rio Grande  do  Sul  continuou  sendo  considerado,  junto com Paraná, como o Estado “celeiro do

 

19

 

país”, responsável pela maior produção nacional de grãos. De um estado que se encontrava à margem da economia brasileira, o Rio Grande se transformou em uma das bases dessa economia.

“O Rio Grande, desde a sua formação, constituíra-se nos moldes de uma economia agropecuária,  subsidiária da agroexportação, voltada para o abastecimento do mercado interno brasileiro com a exportação de gêneros alimentícios, pelo que era conhecido pelo cognome de “celeiro do país”. (Pesavento,1992.p.64).

 

Como já havia comentado anteriormente a sociedade riograndense tinha sua base apoiada no grande latifundiário e na criação  extensiva de gado. Portanto, mandavam os estancieiros graças ao  latifúndio, que era a base de sustentação econômica. Estes se tornaram chefes militares que, posteriormente, irão rebelar-se contra o governo central, tanto no campo econômico, como político, delineando assim a Revolução Farroupilha.

Um dos primeiros partidos criados durante este período, foi conservador, este lutava pela manutenção da propriedade, da monarquia, pela autoridade do Imperador, poder centralizador, escravidão, a agricultura era a salvação econômica e a democracia como fora de seu governo.

O partido Liberal, os moderados (chimangos) e exaltados (farroupilhas) defendiam o Estado autoritário, controlado pelo legislativo, através de sistema parlamentar. Para os exaltados o mais importante é que consideravam os governantes  como empregados dos cidadãos que pagavam impostos, podendo ser despedidos por incompetência ou por uma revolução.

Os moderados colocavam a liberdade na propriedade, considerando cidadão apenas os proprietários. Defendiam eleições indiretas por achar que a massa popular era formada por ignorantes.  Almejavam a federação para que o imposto recolhido ficasse no local de origem e

20

 

para o governo atender as necessidades regionais.

Após a Revolução Farroupilha, o partido conservador tornou-se forte e detentor de cargos públicos. Durante alguns anos foram se formando diversos partidos, e articulações eram efetivadas, até que na capital da província em 1868, os professores Apolinário Porto Alegre, Apeles Porto Alegre e Francisco Xavier da Cunha iniciaram a propaganda republicana, usando a mística dos farrapos, e os mitos e tradições riograndenses. Organizaram o primeiro clube republicando chamado “Bento Gonçalves”, em seguida Joaquim Francisco de Assis Brasil publica um livro “República federativa”, dando como solução para os problemas do Brasil a república federativa.

Por ocasião da proclamação da república, o Partido republicano Riograndense assume o governo do Rio Grande do Sul, tendo como líder Júlio de Castilhos, positivista convicto, e que foi praticamente o único autor da Constituição estadual de 14 de julho de 1891. Esta constituição ficou conhecida como sendo autoritária, e que possibilitava a reeleição sucessiva do Presidente do Estado.     

 “Inspirada no sistema de Política Positiva, de Augusto Comte, a Constituição de 14 de julho trouxe várias inovações: a reeleição do Presidente do estado, contanto que obtivesse três quartas partes dos sufrágios; a  nomeação do Vice-presidente, Assembléia Orçamentária, faculdade legislativa  do presidente, que deveria submeter os projetos à apreciação e emenda de qualquer cidadão, o voto a descoberto, tanto nas eleições como no Tribunal do Júri”. ( Filho, 1974, p. 151).

 

 

O movimento republicano que se instaurou no Rio Grande do Sul, teve como principais características, o federalismo, o abolicionismo, o fim do 4o poder (moderados), e a adoção das idéias positivistas de Augusto Comte. Devido a estas características, e salientando-se o fato de seguir as idéias positivistas, que o Partido Republicano Riograndense

 

21

 

(PRR), fundado em 1882, diferenciou-se dos demais partidos republicanos dos outros Estados da federação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 – O Gaúcho Histórico

 

 

O gaúcho histórico que foi descrito por viajantes estrangeiros que aqui estiveram no início do século XIX, foge aos valores míticos atribuídos pela literatura.

Dentre estes  citamos Robert Cristiano Bertoldo Avé-Lallement nasceu em Lubeck, na Alemanha, em 1812, e faleceu na mesma cidade em 1884. Estudou em Berlim, Paris e Kiel, onde se doutorou em 1837.

Dotado de espírito irrequieto e aventureiro, Robert fez longas viagens. Visitou vários países da Europa, o Egito e o Brasil, onde se demorou por longo tempo. Praticou a medicina no Rio de janeiro, tendo sido médico da Santa Casa de Misericórdia.

Antes de iniciar sua viagem pelo Brasil, viveu longos anos no Rio de janeiro. Por onde ia, procurava ver tudo. O solo, a paisagem, a flora, a fauna, o homem, a economia, a vida social, os usos e costumes, tudo lhe merecia atenção. Foi então que realizou as suas grandes excursões ao sul e a norte do Brasil, escrevendo as suas duas obras, “Reise durch Sud-Brasilien e Reise durch Nord-Brasilien”.

A viagem pelo Sul do Brasil representa, sobretudo, um precioso subsídio para a história da colonização alemã do Sul do Brasil.

 

23

 

Destacamos Auguste Prouvasal de Saint-Hilaire, nasceu em  Orléans  na França, em 1779, e morreu no ano de 1853, em Tupiniére, sendo membro da Academia de Ciências do Instituto de Paris, professor da  faculdade de Ciências de Paris, Cavaleiro da Legião de Honra, das ordens de Cristo e do Cruzeiro do Sul, etc.

Naturalista Francês que veio da França para o Rio de janeiro em 1816, ficando por seis anos praticando os mais diversos tipos de explorações científicas, pelo interior do Brasil.

Penetrou pela primeira vez nas terras de São Pedro do Sul em 1820, veio a Porto Alegre, foi à Cisplatina, percorreu as Missões, desceu o Jacuí; sua permanência foi demorada, só regressou ao Rio de janeiro em maio de 1821 embarcando no Porto de Rio Grande.

Volta para a França em 1822, e começa em 1825 a publicação da primeira obra cientifica “Flora Brasileira meridionalis”. Depois em 1830 edita seu primeiro relato intitulado: Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas gerais; e em 1833, o segundo: Viagens pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil.

Através de seus diários de viagem, entre 1848 aparecem obras respectivamente sob os títulos: Viagem às nascentes do Rio São Francisco e à Províncias de Goiás e Viagem pelas Províncias de São Paulo e Santa Catarina.

O Francês Nicolau Dreys, nasceu em 21 de julho de 1781, natural de Nancy, departamento de Meurthe. Em 1815 a denominada santa  Aliança, provocou o exílio dos bonapartistas, que procuraram abrigo em outros países, entre eles Nicolau Dreys que chegou ao Brasil em 1817, estabelecendo-se no comércio do Rio de Janeiro. Em dezembro, do mesmo ano, viajou para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com destino à Buenos Aires. Estabeleceu-se no comércio em Porto Alegre no período de 1817 à 1825.

 

24

 

Publicou no Rio de janeiro, em 1839, a obra “Notícia descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul”, narrando suas experiências e vivências como comerciante no extremo sul.

A obra aborda o período da Guerra Civil no Rio Grande do Sul, com descrição do meio geográfico, dos núcleos urbanos, da população, destacando o caráter e os costumes dos habitantes, com amplas informações sobre a economia. Muito importante é sua caracterização do gaúcho, que não se confunde com o campeiro e nem com o contrabandista.

 

A denominação “gaúcho” nasceu de grandes grupos sociais de gaudérios, mestiços, charruas, minuanos, guaranis, que cruzavam com as índias de diversas tribos.

A palavra gaúcho não tem uma origem segura. Esta palavra possui diversas definições, que são assim descritas por  alguns historiadores: Gaúcho deriva de “gauches” palavra usada na Espanha para expressar-se sobre vagabundo ou ladrões do campo, acostumados a matar os touros chimarrões, tirar-lhe o couro e levá-los, ocultos, para a venda ou troca por outros gêneros nos povoados; deriva do árabe “Chaouch”, tropeiro, chamado na Espanha de Chaucho, transformado na América em gaúcho; outra hipótese é a de que a palavra venha de “garrucho”, portador de garrocha ou garrucha, lança de meia lua usada por changadores, pré-gaúchos, para caçar o gado. Esses exemplos citados referem -se apenas a algumas denominações dentre as várias existentes entre os historiadores.

“Historicamente o primeiro registro do tipo é em Santa Fé, em 1617, quando mozos perdidos, vestidos à semelhança dos charruas, com botas de garrão de potro, chiripá e poncho, assaltavam as estâncias. O cabildo de Buenos Aires, em 1642, registrou cuatreros e vagabundos, que à maneira dos moços de Santa Fé, roubavam o gado das estâncias. As cartas dos jesuítas registram que em 1686 surgiram os vagos ou vagabundos pilhando as estâncias missioneiras. Em  1700  aparecem com o  nome  de  changadores  na  Vacaria  do Mar,  e como

 

25

 

 

vagabundos e changadores  perto de Montevidéu, em 1705. No diário de demarcação do tratado de 1750, José Saldanha registra os termos gaudério e gaúcho, pilhadores que acompanhavam os exércitos ao longe. Somente a partir de 1800 que o termo gaúcho se generalizou, tornando-se gentílico do século XX, designando o natural do Rio Grande do Sul”. (Flores, 1990, p. 35).

 

Para o naturalista francês Saint Hilaire que iniciou sua viagem pelo Rio Grande do Sul. à partir de 1820, o gaúcho é descrito como sendo parte de um grupo social marginalizado. Eram homens que gostavam da bebida e do jogo, e não se preocupavam em juntar o dinheiro que ganhavam trabalhando como peões nas estâncias.

 “Os vastos campos que percorri são habitados em parte por índios civilizados e mais ainda por mestiços que nada possuem; vão de uma a outra estância, misturam-se sem cerimônia aos moradores da casa e com eles comem carne à vontade. Quando possuem um chiripá e um poncho, sua ambição está satisfeita e gastam o resto do dinheiro jogando e bebendo cachaça. Estes homens sem religião e sem moral, a maior parte índios ou mestiços, que os portugueses designavam sob o nome de Garruchos ou gaúchos(...)”(Saint-Hilaire, 1987, p. 126-129)..

 

 

  O relato de outro viajante, sobre quem eram ou o que é o “gaúcho”, vêm de Nicolau Dreys, que através de seu livro “Notícia Descritiva da província do Rio Grande de São Pedro do Sul”, deu profundo destaque ao meio geográfico da província. Este classifica o gaúcho como sendo um homem nômade, podendo ser encontrado geralmente nas estâncias e charqueadas onde trabalha como peão.

 

 “Os gaúchos, nômades, habituados nas margens do Rio da Prata, principalmente das campeiras ao Norte de Montevidéu, estendem-se igualmente em todo o território banhado pelo Paraguai, Paraná e Uruguai, até o Oceano, em todas as partes onde há estâncias ou charquedas em que servem de peões”. (Dreys, 1990. p. 122).

 

26

 

Quando esteve aqui em 1858, o viajante Robert Avé-Lallemant, escreveu em sua obra “Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, a diversificação de raças que compunham o gaúcho.

Ao visitar as colônias alemãs em São Leopoldo, ele aponta o agauchamento de membros dessa colônia. Esses alemães demonstravam no campo, traços de gaucharia, que se destaca no manejo do laço, condução da tropa, e pelo modo de montar. Destaca em São Leopoldo, alemães aparecerem montados a cavalo, com elegantes ponchos listrados.

 “Em cavalos medíocres trotavam alguns jovens, semelhantes a gaúchos meio civilizados, com elegantes ponchos listrados, talvez com a intenção de impressionar”. (Avé-Lallemant, 1980, p. 117).  

Ao continuar sua viagem em direção ao interior do Rio Grande do Sul, consegue destacar essa miscigenação das raças que formam o gaúcho. Quando chega a Cruz Alta, ao norte do Rio Grande do Sul consegue  abrigo em uma casa que era ao mesmo tempo um armazém. E a noite este armazém servia de encontro, apareciam algumas pessoas para conversar e comprar mantimentos, quando subitamente o autor se surpreendeu com a chegada de alguns cavaleiros mestiços que lhe chamaram a atenção e assim os descreveu:

“Dois mestiços de índios, um par impressionante, ambos altos e vigorosos, de cabelos longos, espessos e negros, barba crespa, perfeitas  fisionomias de índios, mas atrevidos, com pequenos ponchos e grandes esporas. Comportavam-se com desembaraço, mesmo  atrevidamente e insultaram um brasileiro até que ele se esgueirou. Realmente horrorosos os dois homens, verdadeiros bandidos, e por isso mesmo me interessavam. Davam-me a impressão de fantásticos centauros, que tivessem amarrado seus corpos de cavalo à porta”. (Avé-Lallemant, 1980.p.192).

 

Estes viajantes quando estiveram percorrendo as terras riograndenses, tiveram a oportunidade  de desfrutar além das belezas naturais que o Rio Grande do Sul oferece, também

27

 

 a hospitalidade deste povo, que do mais humilde rancho feito de taipa até a casa mais luxuosa da época recebia bem seus viajantes. Com esta hospitalidade típica da região sul, estes viajantes quando escreveram suas obras tiveram a oportunidade de relatar primeiramente, ao chegar nas  vilas e lugarejos afastados da civilização os hábitos deste povo.

 “Não importa em geral ao riograndense uma despesa, ceder um cavalo, uma vaca ou algumas libras de carne ou receber um estranho. A hospitalidade espontânea, oferecida de boa vontade, é um traço  profundamente característico da maioria dos estrangeiros e mesmo das pessoas pobres, se  tais existem no país-hospitalidade na mais ampla escala. Prova-o, quase todos os dias, o itinerário de minha peregrinação”. (Avé-Lallemant,1980.p.375).

 

 

Um dos principais hábitos do gaúcho foi observado pelo viajante Saint Hilaire, este achou curioso que mesmo em áreas com lagos repletos de peixes os habitantes das regiões os desprezavam, e preferiam comer carne.

“Desde que me encontro nesta capitania já tive oportunidade de presenciar os hábitos carnívoros de seus habitantes; em redor das estâncias encontram-se espalhados muitos ossos de animais; e, logo que se entra nessas fazendas, sente-se logo cheiro de carne e sebo. Em toda parte onde parávamos pelo caminho, meu guia perguntava se lhe podiam vender uma manta. Ela é um pedaço comprido de carne seca; e sempre lhe era oferecida. Ele e meus companheiros dividiam pedaços de pau para fazer espetos; cortavam nacos de manta, colocados alguns instantes ao fogo e logo os devoravam”. ( Saint-Hilaire, 1987.p.29).

 

 

Este hábito de comer carne se dava pela enorme quantidade de gado selvagem existente nas imensas planícies, da qual eram tidas  como pampas sul-americanos, esse gado não era marcado e pertencia ao primeiro que o capturasse.

Existem várias teorias sobre a origem e a introdução do gado no Rio Grande do Sul.

A mais importante seria de que em 1633 já se registrou um pequeno número de cabeças  de gado nos povoados missioneiros trazidos pelos jesuítas,   para   servir  de alimento

 

28

 

nas reduções. Só um ano depois em 1634 o padre Cristóvão de Mendonza introduziu o gado vacum em grande escala.

Quando os bandeirantes destruíram as reduções, os jesuítas transferiram o gado para o sul do rio Jacuí. Nesta região, com boa  pastagem e muita água, formou-se a Vacaria do Mar, de onde o gado era retirado para alimentar os índios das reduções da margem direita do rio Uruguai.

Espanhóis e portugueses descobriram a Vacaria do Mar, abatendo os animais para tirar o couro e o sebo, e levando grande quantidade de gado para às feiras de Itú e Sorocaba. Com toda esta pilhagem em 1739 não havia mais gado na região.

Outro hábito bem interessante do gaúcho que foi constatado pelos viajantes, era o mate, algumas vezes era servido com ou sem açúcar se tornando mais comum nas viagens que faziam pelo interior do Estado. Este era um modo de agradar e recepcionar o viajante que chegava cansado.

Esta experiência teve o viajante Saint-Hilaire quando estava hospedado na estância de José Correia, localizada no interior da cidade de Rio Grande, na qual assim o descreve:

 “O uso dessa bebida é geral aqui: toma-se mate no instante em que se acorda e depois, várias vezes durante o dia. A chaleira cheia de água quente está sempre ao fogo e, logo que um estranho entra na casa, oferece-lhe mate imediatamente. A primeira vez que provei tal bebida, achei-a muito sem graça, mas cedo me acostumei a ela e, atualmente, tomo vários mates seguidamente com prazer, até mesmo sem açúcar”. (Saint-Hilaire, 1987.p.101).

 

 

Um costume do gaúcho, desde seus tempos mais primitivos, foi o de andar a cavalo. A destreza que o gaúcho montava a cavalo foi adquirida tanto pela vinda do homem europeu, como também através do índio.

 

29

 

Tanto nas guerras em que participaram, como para quem precisava viajar, o cavalo foi de fundamental importância dentro da história riograndense.

Diante de tal importância os viajantes em seus relatos também deram ênfase ao cavalo, em um primeiro momento o testemunho de Nicolau Dreys nos  passa o afeto que o gaúcho têm por seu cavalo.

“O gaúcho é ótimo cavaleiro: identificado  aparentemente com o cavalo, nasce, vive e morre com ele; nunca o gaúcho recusou montar qualquer cavalo, e nunca se importou com seus vícios ou suas qualidades”. (Dreys, 1990, p. 123).

Já ao contrário do que nos revelou Nicolau Dreys ao passar por Rio Grande, Saint-Hilaire nos dá uma descrição de modalidades cruéis, que eram aplicadas aos cavalos por parte de seus habitantes, que assim por ele foram descritas:

“Nesta capitania acresce ainda, outra modalidade cruel: a facilidade com que os habitantes podem renovar seus cavalos os impede de se afeiçoarem a estes, podendo impunemente tratá-los sem piedade alguma; vivem, por assim dizer, em matadouros; o sangue dos animais corre incessantemente em torno deles e, desde a infância, se acostumam ao espetáculo da morte e dos sofrimentos”. ( Saint-Hilaire, 1987.p.67).

Portanto através desses relatos contraditórios, podemos constatar que nem sempre o gaúcho teve o cavalo como seu companheiro, quando havia necessidade em certas ocasiões, matava-o para comer a carne. Isto era comum em alguns lugarejos do Rio Grande do Sul.

Outro fato interessante, com relação a este costume riograndense, leva o viajante Avé-Lallemant a fazer um contraponto entre o modo de como cavalgava a mulher da cidade que era diferente da mulher do campo.

30

 

“Lá em baixo, na planície, as moças montam sentadas de lado na sela, mas aqui na serra montam todas como homens, pois os caminhos são mais estreitos e íngremes. Não usam sapatos, nem meias; os caminhos são demasiado sujos para esse luxo urbano”. (Avé-Lallemant, 1980. p. 124).

 

Através de seus escritos durante a viagem, Saint-Hilaire tenta separar os costumes dos gaúchos, dos costumes riograndenses, mas parece ter uma certa dificuldade de fazê-lo. O autor em seus relatos faz uma crítica preconceituosa sobre as pessoas da região, uma vez  que era de nacionalidade francesa e vivia uma outra realidade. Em visita a uma estância na campanha riograndense esta crítica se confirma, ao analisar um estancieiro da região.

 “Eis um homem  que apenas se nutre de carne, mora em um mísero rancho e não tem outro prazer além do fumo e do mate, e é oficial de milícia. Limita, suas habilidades a saber montar a cavalo. Mostra-se muito satisfeito; mas é de esperar que uma tal existência deva reconduzir necessariamente a barbárie. Sou tentado a acreditar que esse homem, apesar de ser branco, pertence aos habitantes dessa região que tem costumes semelhantes aos garuchos(...)”. (Saint-Hilaire, 1987.p.250).

 

 

Outra informação deste viajante vai confirmar esta intenção, é sobre a capela de Alegrete, onde os habitantes consomem pequenas quantidades de lavoura, assim mesmo comprada de outros locais. Não produzem lavoura por terem quase os “mesmos hábitos dos garuchos”. Segundo o autor, esta capela é uma comunidade sob influência gaúcha. Provavelmente isto valia também para outras comunidades do Rio Grande do Sul e principalmente a zona da campanha na época. Dando continuidade ao testemunho destes viajantes, vamos nos ater as danças, e conseqüentemente as danças de salão (bailes) que, ocorriam antigamente, e que fizeram parte do cotidiano do gaúcho.

 

31

 

Nas obras de Dreys e Saint Hilaire, é que serão remontadas as referências mais antigas as danças populares riograndenses, e há uma certa concordância nas observações que anotaram, sendo a gravidade e a falta de vivacidade suas principais características.

 

Conforme Dreys:

 

 “pouco trabalha o gaúcho enquanto tem dinheiro; o tempo passa-se em jogar, tocar ou escutar uma  guitarra nalguma pulperia, e às vezes, porém com raridade, dança um espécie de chula grave, que  vimos praticar por algum deles”. (Dreys, 1990.p.124).

 

E segundo Saint-Hilaire:

“Enquanto escrevo este diário, um mestiço toca viola à porta da minha choupana, cantando tristes canções espanholas, e as índias dançam com os soldados do alferes. Estas danças nada têm da indecências dos batuques; é um sapateado comedido, com alguma graça, mas sem nenhuma vivacidade. Poderia dizer o mesmo das danças mais decentes e mais elegantes de Montevidéu. Elas não têm a movimentação e a rapidez das nossas. Simplesmente uma lenta marcha, acompanhada às vezes de figuras e de atitudes muito  sérias e algumas vezes, muito indecentes”. ( Saint-Hilaire, 1987.p.251).

 

De acordo com estes viajantes os trechos citados referem-se a danças populares, dando uma idéia de que forma elas atuavam no cotidiano do povo, e na região por onde eles passaram.

Essas primitivas danças, que  reuniam correntes étnicas, foram chamadas de “Fandangos”. Tinham como características o batepé ou sapateios.

Elas chegaram ao Rio Grande do Sul, trazidas dos mais diversos locais. Poucas são originárias do Estado ou País. Antes  de  chegarem  geralmente  passaram  por  outras nações.

32

 

Pelo Brasil foram dançadas de várias formas. Com o passar do tempo, por influências étnicas, foram sofrendo alterações em sua coreografia.

 “Foram nas estâncias gaúchas que as danças desempenharam um papel de convivência social muito importante. Carneavam-se animais, muitas bebidas e doces, sob compassos musicais, festejavam-se aniversários, casamentos, competições, noivados, etc., sob enfeitiçados bailados com danças e contradanças dos fandangos”. (Lamberty, 1989.p.70).

 

Quanto as danças de salão, estas faziam parte do divertimento dos gaúchos e camponeses. Eram os bailes que muitas vezes ocorriam com músicas, que mandavam vir da povoação mais próxima, ou então ao som de piano, se havia um na estância.   

Ao passar por Porto Alegre Saint Hilaire deixa registrado a sua impressão com relação a um baile, do qual foi convidado a participar.

 “Dançaram valsas, contradanças e bailados espanhóis; algumas senhoras tocaram piano, outras cantaram com muita propriedade, acompanhadas ao violão, e o sarau terminou com jogos de salão”. (Saint-Hilaire, 1987.p.40).

Com relação ao bailes que ocorriam nesta  época, podemos acrescentar  a experiência vivida pelo viajante Avé-Lallemant. Este  viajante ao se aproximar de um sítio na localidade de Pinhal, região da Serra, se deparou com o seguinte fato:

“Seis pares de jovens dançavam “schottische e polcas violentas e o forte soalho estrondeava com o sincrônico sapatear de vigorosos pés. Em particular os dançarinos exalavam forte cheiro de cachaça e as dançarinas forte cheiro de suor. Ao pôr –do – sol terminou o baile”. ( Avé-Lallemant, 1980.p.222).

 

 

Geralmente os bailes realizados na campanha eram entusiasmados, o piso era de chão, e iluminado por candeeiros e algum lampião de querosene.

 

 

33

 

Os homens iam a cavalo, as moças, se moravam perto, iam à pé, ou se morassem longe iam de carreta de boi, poucas utilizavam a montaria.

A duração do baile ia do cair da noite ao sair do sol. As danças eram variadas, havaneira, polca, maxixe, valsa, marcha e também se dançava algum tango argentino. A música era sempre animada só por uma gaita, raras vezes acompanhada de violão . Era cobrado entrada para pagar o gaiteiro, que era responsável pelo bom andamento do baile, conforme seu repertório e resistência.

 

 “Como era lindo se ver a saída de um baile. Os gaúchos enamorados escaramuçando seus pingos, debandavam a procura da condução de sua prenda que já havia partido, outros a galope, abanando com o chapéu  aos gritos para os companheiros rumavam para seus ranchos ou estâncias”. (Gonçalves,1984.p.93).

 

 

Assim através do testemunho destes viajantes  e de alguns  historiadores, podemos ter ligeiramente caracterizados as danças e os bailes ocorridos tanto no centro, quanto no interior do estado.

Porém agora vamos comentar sobre a indumentária, o modo como o gaúcho se vestia, com o testemunho destes viajantes, que percorreram várias localidades do Rio Grande do Sul.

De acordo com a localidade em que passaram, os viajantes  notavam que o habitante riograndense, adotava um sistema próprio no uso de seu vestuário.

Este era coerente ao seu meio de vida, só se diferenciando pela maior ou menor riqueza do traje, que tornava-se todo especial para o meio em que vivem.

Em sua estadia em São Leopoldo o viajante Avé-Lallemant assim descreve o modo de vestir de seus habitantes quando vinham para a vila procurar divertimento.

34

 

 “Dos distritos afastados da colônia também veio gente endomingada para a vila: jovens cavaleiros ornados de ponchos listrados, ostentando esporas de prata e arreios guarnecidos de prata,. Vieram também a cavalo jovens senhoras, sentadas de lado na sela,  tão  seguras, como os homens, com  ornados de prata nos arreios, porém sem os longos vestidos de montar e, por isso mesmo, mais graciosas e naturais que as nossas hécticas amazonas “. ( Avé-Lallemant, 1980.p.118 ).

 

A indumentária gaúcha retrata a influência que foi introduzida pelos aventureiros ibéricos; no início da nossa formação o índio andava sumariamente vestido. Após as primeiras invasões passou a vestir o “caiapi”. Esta vestimenta foi observada por Saint-Hilaire quando de passagem por um acampamento militar “Do Rincón de Las  Gallinas”, tendo assim a oportunidade de ver como era tal roupa:

“Os caiapis, espécie de mantô, a única roupa dos homens. O caiapi, a que me referi, é uma tira de couro  de mula bastante longa, com cerca de três pés de largura. Exteriormente, conserva o pêlo e debaixo é pintado regularmente com linhas retas ou curvas, de diversas cores”. (Saint-Hilaire, 1987.p. 198).

O gaúcho primitivo não se preocupava com o seu modo de vestir, usava o dinheiro mais para jogar, e se preocupava menos em suprir suas precisões.

 

 “Certo de seus mantimentos, enquanto o laço não lhe faltava, e não tendo vestido senão o estrito necessário, isto é, o chiripá, pedaço de baeta amarrado em redor do corpo, da cintura para baixo, e por cima do chiripá, o cingidor, espécie de avental de couro cru, destinando a receber a fricção do laço, quando o animal faz força sobre ele; uma camisa, se  a tem; uma jaqueta sem mangas; um par de ceroulas, com franjas compridas nas extremidades inferiores; às vezes um par de calças por cima; um lenço, quase sempre amarrado na cabeça; um chapéu roto; raras vezes um poncho completo, e em lugar deste, um pedaço de baeta vermelha”.(Dreys,1990.p.124).

 

 

35

 

O chiripá torna-se uma vestimenta na história do gaúchos primitivo, porque durante os conflitos, dava mais mobilidade para a luta e a montaria.

Em sua passagem pela cidade de Castilhos, Saint Hilaire nos descreve este tipo de vestimenta que os homens vestiam.

 “Os homens que encontrei por aqui usam o chiripá, pedaço de tecido de lã do qual se faz um cinto e que cobre as coxas, descendo até os joelhos com um saiote. Vestem calças largas de um tecido de algodão feito em casa, e a extremidade de cada perna termina em franjas, acima das quais há muitas vezes um ponto aberto”. (Sant-Hilaire, 1987.p.123).

 

Este autor também fez um contraponto com relação a vestimenta usada na cidade, que era diferente da usada no campo.

Na cidade a vestimenta tanto feminina quanto masculina apresentava-se mais preocupada com o estilo europeu, mais moderno, já no campo esta vestimenta tornava-se simples e tinha que se adaptar as necessidades da vida campeira.

 

Quando passou pela cidade de Rio Grande o autor assim descreve a vestimenta feminina:   “... usavam vestidos de seda branca, sapatos e meias de seda; jovens e velhas, traziam a cabeça descoberta, os cabelos armados por uma travessa e enfeitadas com flores artificiais”. (Saint-Hilaire, 1987.p.64).

 

Ao passar pelo interior da cidade de Castilhos pode constatar o modo e a diferença de como as pessoas do campo se vestiam.

 

 

36

 

“...estas jovens trajam, como sua mãe, vestido de indiana e um fichu de algodão, trazendo os cabelos trançados e alteados com um pente. E os homens vestem calças largas de um tecido de algodão feito em casa, e a extremidade de cada perna termina em franjas...”(Saint-Hilaire, 1987.p.122,123).

 

Portanto concluo este capítulo, que procurou dar uma idéia de como era o gaúcho histórico.

Primeiro procurando dar um denominação para a palavra gaúcho, fazendo com que se possa ter uma noção de onde se originou, tanto historicamente como  através dos relatos dos viajantes que por aqui passaram no início do século XIX.

Depois foram pesquisados os hábitos, costumes, a hospitalidade, a verdadeira paixão do gaúcho por seu cavalo, e a sua importância no decorrer da história do Rio Grande do Sul.

As danças que aqui chegaram e se tornaram a marca registrada do território riograndense, que ao se misturarem as várias etnias existentes no Estado, tiveram a sua importância no contexto social e cultural do Rio Grande do Sul. Os bailes que se tornaram o principal divertimento do gaúcho, e que perdura até os dias de hoje.

A vestimenta do gaúcho, esta teve que ser adaptada conforme as suas necessidades, dificuldades de acesso a diversos lugares; e a sua diversificação entre a cidade e o campo.

Todos esses fatos que durante o capítulo se desenvolveram através de uma pesquisa científica, proporcionam uma maior compreensão para entendermos melhor o perfil do gaúcho primitivo.

                

 

 

 

 

 

 

3 O GAÚCHO ROMÂNTICO

 

 

O gaúcho, tal  qual conhecemos, é um fenômeno do século XIX e está associado decisivamente ao processo histórico de formação político-econômico do Rio Grande do Sul. No começo do século XX apareceram contos e romances, examinando a condição do homem mencionado, e apontado como gaúcho.

No decorrer do tempo a palavra gaúcho, que significava nos primeiros tempos, andarilho, marginal, insubordinado, aos poucos vai dando lugar para uma significação mais diversa, e o gaúcho passa a ser designativo de destemor, lealdade, heroísmo. Esses são qualificativos que vão mostrar a imagem mítica do gaúcho, que será identificado pela literatura.

Surge então o gaúcho romântico ou literário, este segundo alguns autores encontra na Revolução Farroupilha o momento histórico decisivo para sua afirmação. O conflito é a oportunidade para que o andarilho da campanha, que perambulava pelas fazendas das regiões fronteiriças e latifundiárias do território riograndense, tivesse a oportunidade de obter a posição de herói em nome de uma causa que, evidentemente, não entendia direito qual era.

Autores como Alcides Maya ao escrever “Tapera” procuram exaltar o regionalismo gaúcho através de seus contos, dando uma visão histórica e sobretudo com observações sobre o meio ambiente que serviu de experiência ao escritor.

38

 

“Pampa! Sozinha entre solidões áridas; ponto mais deserto e mais nú da paisagem deserta  e nua, a tapera fica, pendurada nos escombros, sarcasticamente erecta e  descolmada, altivamente serena, morta e de pé”.( Maya, 1911. p.5).

Álvaro de Alencastro é outro autor que ao escrever o romance “Azares das Revoluções”, exalta em seu contos as cenas da vida gauchesca. O conto “O Pampa” descreve o gaúcho principalmente pelo meio em que vive.

      “É o pampa que faz o gaúcho aventureiro e andarengo. O gaúcho é o pampa. O meio pampeano criou o gaúcho, modelou-o à sua feição. O pampa imenso, interminável, sem limites, com horizontes infinitos, fez a alma gauchesca poética, por vezes incompreendida”. (Alencastro, 1928. P.3 e 4).

A vida cotidiana do gaúcho da campanha também é relatada por estes autores, os vários “contos” que escreveram nos darão uma idéia geral de seu dia-a-dia.

Álvaro de Alencastro ao escrever “Refugando o Sinuelo” nos mostra no conto “O Gaúcho no Baile”, um dos momentos mágicos do gaúcho, o modo do qual  mais gostava de se divertir.

“É interessante ver quando os convidados apeiam na casa do baile. Os homens levam as botinas, algumas de charol*, e as calças, debaixo dos  pelegos. As  moças levam enfiados no braço esquerdo, uma trouxinha com vestido que devem mudar no baile à noite. O baile gaúcho tem três aspectos originais: a mudança dos vestidos à meia-noite, feita por todas as damas; a polka de relação e a polka das damas”. (Alencastro, 1928.p.109).

 

 

No decorrer do texto serão feitos os devidos comentários com relação a estas duas danças, que foram tão comuns nos bailes de antigamente em todo o interior do estado do Rio Grande do Sul.

_________________________________

* Charol: capa de couro usada usada antigamente para proteger as botas.

 

 

O Rio Grande do Sul por ter sido palco de grandes conflitos de fronteiras, instigou muitos autores  a escreverem seus romances tratando do gaúcho como um herói, que lutava até a morte para expulsar e defender o seu pago dos inimigos que queriam invadir. Assim o descreve o autor Roque Callage no conto “Alma Heróica”:

 “Que magníficos exemplos de brava altivez invencível ! Por toda parte, em todas as direções redobravam-se vigilâncias e cuidados. A linha divisória  do território, após a fundação da colônia do Sacramento - pomo de futuras discórdias internacionais - não teve jamais fixação duradoura. Por ser o extremo da fronteira espanhola, era exatamente aqui que a ruptura dos acordos entre estes, o de S. lldefonso, se efetivava em verdadeiros encontros campaes. Do embate dessas contendas formidáveis surgira na centaurica figura pampeana do gaúcho o bravo destemido dos entreveiros, aquele que fez recuar, depois, para os confins da outra banda, a fúria das hostes inimigas que já cantara victoria nas intransponíveis barrancas do Rio Pardo”. (Callage, 1920.p.103).

 

 

Esta imagem do gaúcho romântico, herói e símbolo regional, foi consolidada especialmente à partir do Partenon Literário, do Partido Republicano Riograndense (PRR) de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, pelo Instituto Histórico e geográfico do Rio Grande do Sul e pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).

 “Continuada pelos tradicionalistas que deram ao gaúcho atributos de cavaleiros medieval, imitando os heróis do romantismo literário europeu. Cultiva-se assim, uma tradição idealizada”. (Flores, 1990. p. 34).

Surgiram autores, que com seus escritos expressaram amor aos costumes campeiros, exaltaram o tradicionalismo como a expressão  mais intensa do uso de uma imagem heróica do gaúcho.

Este tradicionalismo teve seu marco inicial quando em 1894 Elias Regules, fundou em Montevidéu,  no Uruguai,  uma associação a   “La  Criolla”,   para  defender  valores que o

 

40

 

 homem uruguaio recebera do gaúcho e que estavam ameaçados de desaparecer pelo modernismo.

João Cezimbra Jacques, um estudioso que conhecia a vida nos campos, quando soube da fundação de “La Criolla” no Uruguai, juntou-se em companhia de amigos idealistas e fundou em Porto Alegre em 1898, o “Grêmio Gaúcho”. Sendo esta a primeira tentativa de enraizar o tradicionalismo no estado.

Seguindo este espírito tradicionalista, alguns alunos do Colégio Júlio de Castilhos e Rosário, que vieram do interior do Estado para estudar na capital, resolveram acompanhar a cavalo pelas ruas de Porto Alegre os restos mortais do General David Canabarro, que estavam sendo transladados de Santana do Livramento. Esta saudade das práticas comunitárias de suas terras natais fizeram com que  fosse fundado em 1948 pelos próprios alunos destes colégios o primeiro Centro de Tradições gaúchas (O CTG 35).

 “Em 24 de abril de 1948 no portão da residência da família Sinch, na rua Duque de Caxias, hoje um grande edifício, eles fundaram o “35” Centro de Tradições Gaúchas, hoje na Avenida Ipiranga, 5200.  E assim surge oficialmente o primeiro CTG do Rio Grande do Sul. Entre os fundadores estavam: Glaucus saraiva, Barbosa Lessa, Paixão Côrtes, Ciro Dutra Ferreira, Flávio Ramos, Flávio Damem, Mário Vieira, Cândido da Silva Neto, Laerte Vieira Simch e Waldomiro Sousa, o único com mais de vinte anos”. (Acri, 1985.p.166-167).

 

Segundo os tradicionalistas, o galpão dos Centros de Tradições Gaúchas são considerados como autênticos templos dedicados ao culto das tradições e a cultura gaúcha, em todos as suas dimensões. É ali que peões e prendas reforçam o amor às tradições regionais para a luta de resistência à possibilidade de destruição das características de uma identidade cultural tradicionalista, pela importação de modismo a serviço de outros interesses, que são, que não são passados excessivamente pela difusão de hábitos, usos e costumes contrários aos valores  tradicionais.  É portanto  no interior  destes galpões, em torno de um fogo de chão, ou

41

 

em meio às manifestações artísticas, culturais ou sociais, com um sentido de amor cívico ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, no praticar de hábitos, uso e costumes indicados pela tradição, é que segundo o pensamento tradicionalista será possível preservar a cultura riograndense.

A nova realidade do movimento surge em 1954 com o primeiro  Congresso Tradicionalista do Rio Grande do Sul, realizado na cidade de Santa Maria. Seu conteúdo é baseado na tese “O Sentido e o valor do Tradicionalismo”, por Barbosa Lessa, que junto com uma comunidade heterogênea tradicionalista busca a hegemonia ideológica.

Em 1968, Glauco Saraiva publica o Manual do Tradicionalismo, que traz a idéia de que o movimento caminha com segurança, para um estágio de força social. Diz ainda que:

“Tradicionalismo é um sistema organizado e planificado de culto, prática e divulgação desse todo que chamamos Tradição. Obedece a  uma hierarquia  própria, possui um alto programa contido em sua Carta de Princípios, que deve, na medida do possível, realizar e cumprir. Tradição, comparativamente, é o  campo das culturas gauchescas. Tradicionalismo, a técnica de tradição, semeadura, desenvolvimento e proteção das suas riquezas naturais, através de  núcleos que se intitulam Centro de Tradições Gaúchas:. ( saraiva, 1968.p.15).

 

Este documento elaborado por Glauco Saraiva teve como objetivo, o de evitar a perda dos princípios de formação moral do gaúcho.

É resgatado um mundo onde são protegidos os heróis riograndenses para projetá-los ao futuro, procurando esconder o verdadeiro teor  da história, inclusive os conflitos sociais. Devido a isso, o gaúcho deixa de ser um ser social e passa a ser um símbolo mitificado.

 Vamos nos ater agora aos hábitos e costumes do gaúcho. Quando nos referimos a estes dois termos, logo lembramos do gaúcho do interior que é o que mais conserva esses princípios, ao passo que o gaúcho das cidades grandes, nem sempre consegue tornar possível o uso desses princípios por estar em constante evolução.

 

42

 

O gaúcho adquiriu o gosto pelo chimarrão dos índios primitivos e o utiliza como forma hospitaleira de receber os visitantes.

“No Rio Grande do Sul quando se deixou brotar a tradicional hospitalidade gaúcha, sempre esteve uma mão amiga  estendida, alcançando o símbolo  desse gesto- um chimarrão!” (Lamberty, 1989.p.63).

O churrasco também se tornou um hábito tradicional adquirido pelos gaúchos, desde as antigas tribos indígenas.

 “No Rio Grande do Sul, onde o churrasco tomou tanta intensidade e importância, sua trajetória acompanha o gaúcho ao longo da história. A mais  rudimentar forma de assar carne remonta à época dos índios guaranis. Os guaranis preparavam a carne fresca, abriram um buraco no chão, forravam com folhas verdes, de árvores, deitavam-na, cobriam com mais ramos, mais uma camada de terra e um fogo em cima. A terra e as folhas aqueciam, assando a carne, envolta nos vegetais. O gosto das folhas servia como tempero, na falta de sal”. ( Lamberty, 1989.p.65).

 

 

O cavalo faz parte dos costumes do gaúcho, é o seu maior companheiro, tanto na lida de campo, quanto nas batalhas que ocorreram ao longo da história do Rio Grande do Sul.

A destreza com que o gaúcho montava seu cavalo foi adquirida através da mistura das habilidades do indígena com o homem europeu. Estes traços europeus e indígenas contribuíram  para a formação do gaúcho cavaleiro.

“Quando aproximava-se o grosso de uma força ou coluna, tanto do governo como dos revolucionários, nos pagos logo apareciam piquetes, cuja missão era “reculutar” cavalos nas estâncias. O cavalo era tido como arma de guerra. Sem ele não se fazia revolução. Os piquetes potriavam tudo o que encontravam de melhor, e, em troca, deixavam matungos cansados, aos quais se dava o nome de guerreiros”. ( Gonçalves, 1984p.106).

 

O Rio Grande do Sul do século XIX era modesto no que diz respeito as suas danças.

 

43

 

Mas a partir do surgimento do movimento tradicionalista ocorre um maior estudo para colocar em evidência as nossas próprias danças e suas origens.

Isto ocorre porque em 1849, os tradicionalistas Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, ao participarem dos festejos comemorativos do “Dia da Tradição” em Montevidéu se surpreenderam com a riqueza das danças tradicionais daquele país. Voltaram decepcionados de Montevidéu porque o Rio Grande do Sul não tinha uma dança sequer, que pudesse nos fazer representar.

Foi daí que surgiu a idéia desses tradicionalistas em percorrer o interior do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina, Paraguai, Santa Catarina e São Paulo em busca deste conteúdo desconhecido por todos, iniciando assim uma detalhada pesquisa.

Precisamos entender que a dança não é um divertimento, ela serve muitas vezes de intercâmbio cultural aproximando grupos  geograficamente separados pela imensidão territorial existente entre vários países.

 “Num mesmo cadinho se reuniram danças  de tropeiros, masculinas (como o fandango e a chula), danças de casais trazidas pelos açorianos ( como a chimarrita e a ratoeira), danças luso-açorianas (como o pezinho e a tirana) e danças luso-brasileiras, (como o anu e o balaio)”. (Côrtes e Lessa, 1975.p.35).

A mais típica representação tradicional no que se refere as danças no Rio Grande do Sul, é o fandango.

Era chamado de fandango no antigo Rio Grande, porque se tratava de uma série de cantigas sendo alternadas de sapateados. Estas canções, seu ritmo, música eram providas essencialmente de uma mestiçagem brasileira; enquanto seu sapateado tinha características das antigas danças de par solto, originárias da Espanha.

44

 

Foram nos fandangos que nasceram as danças do balaio, Anu, Quero-mana, Tirana, Chula, Sarabalho, Dança dos Facões, Chimarrita, Maçanico, Pezinho, etc.

O Rio Grande do Sul sofreu outras influências em suas danças, o minueto que veio da Corte de Luiz XIV trazendo uma nova geração coreográfica; da Inglaterra surgiu a country dance gerando um ciclo de contradanças, quadrilhas, bailados, que ainda levavam a conotação de danças de pares soltos.

No uso da valsa esta influenciou o aparecimento de uma última geração coreográfica, que chega até nossos dias e se refere as danças de pares enlaçados.

Este processo de formação das danças gaúchas, estão sendo essenciais para nos dar uma idéia de como estas surgiram e suas origens.

“Entre as altas classes o fandango que até pelos anos de 1839 e 1840 ainda era muito usado, foi sendo substituído pelas danças vindas da Europa como ril, a gavota, o sorongo, o montenegro, a valsa e mais tarde as polcas, os chotes, as contradanças, as mazurcas, e finalmente as lindas havaneiras, expressão musical do langor e dos requebros”. (Jacques, 1979.p.75).

Hoje em dia as antigas danças de fandango de pares soltos somente são apresentadas, na sua forma original em demonstrações artísticas tradicionais, estas são consideradas como sendo do folclore histórico.

Estas danças de cunho artístico estão divididas em relação ao modo como utilizam-se do sapateado.

As danças que vamos relacionar não se utilizam do sapateado para executarem suas coreografias. Entre elas estão a Chimarrita, o Rilo, Caranguejo, Pézinho, Quero-mana, Pau-de-fita,  Rancheira,  Rancheira de Carreirinha, Terol,  Meia-canha (polca de relação), Pericon,

45

 

 Chotes, Chotes de Duas Damas, Maçanico, cana-verde e Polquinha.

No entanto precisa-se saber sapatear para que se possa  executar as seguintes danças: Rancheira de Carreirinha, Tirana do Lenço, Anú, Balaio, Tatú, Chimarrita-Balão, Chula e Dança dos Facões.

Pelo que se constatou, as danças gaúchas tinham uma grande mistura de influências, e não poderiam ser  consideradas como sendo gaúchas. No entanto devido ao esforço de pesquisa realizada pelos tradicionalistas Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, essas danças se tornaram mais fáceis tanto como forma documental, quanto de poder aprendê-las nas Invernadas Artísticas dos Centros de Tradições Gaúchas.

          “Estas danças são gaúchas não porque tivessem se originado inteiramente no ambiente campeiro, mas porque o gaúcho recebendo-as de onde quer que fosse, lhes deu música, detalhes, colorido e alma nativa”. (Côrtes e Lessa, 1975.p.131).

A palavra fandango pode ser empregada hoje em sentido mais geral, esta serve para designar todos os tipos de bailes e divertimentos que ocorrem no Rio Grande do Sul.

Os bailes que ocorriam antigamente eram mais freqüentes no interior do Rio Grande do Sul. Dançava-se em ranchos com piso de chão e iluminação de lampião. Os bailes começavam ao cair da noite e iam até o amanhecer. A música era responsabilidade de um só gaiteiro, que tocava a noite inteira.

Hoje em dia os bailes acontecem tanto em galpões de CTG (Centro de Tradições Gaúchas),  quanto em clubes e associações comunitárias, e quem anima os bailes são conjuntos, que muitas vezes exageram em suas coreografias deturpando o verdadeiro sentido dos ideais  criados pelos tradicionalistas.

 

46

 

Agora vamos relacionar algumas danças e suas características, estas fazem parte do repertório dos bailes em todo o Rio Grande do Sul. São elas:

-         Chotes Riograndenses: O “shottisch” trazido da Escócia, como outras danças sofreu modificações ao chegar no Rio Grande do Sul, pois amoldou-se a nova instrumentalização (a cordeona que já havia sido introduzida como instrumento solista) assim dando origem a uma nova criação musical, muito alegre, que hoje faz parte da tradição do gaúcho, este é o “chote ou chotes”.

-         Rancheira: A rancheira foi introduzida no Rio Grande do Sul pelos argentinos e uruguaios. Esta é uma variação pampeana da “Mazurca”, atualmente a rancheira ainda é uma dança bastante popular no Uruguai, Argentina e Rio Grande do Sul.

-         Milonga: A milonga adentra o Rio Grande do Sul através da fronteira Uruguaia. Na Argentina, é curioso notar que a milonga é explicada como sendo de origem africana, segundo coloca Barbosa Lessa. Outra corrente, no entanto, diz que a milonga sofreu influências árabe, isto é, chegou à Argentina pelas mãos dos mouros espanhóis. O toque da milonga faz com que os pares dancem a maneira do tango, apesar de ser bem marcados os passos do tipo dois-e-um.

-         Bugiu: Tem uma origem estranha. Nasceu  pelas mãos de um  gaiteiro serrano que aproveitava o jogo de foles do acordeão para  imitar o som do macaco bugio. No entanto, o bugiu era considerado dança de ralé na região rural missioneira,. Já na região da Serra é o ritmo apreciado. O “ronco” da gaita exige dos pares uma sintonia aguçada . Dança-se ao estilo da vaneira, mas com um chacoalhado característico nos passos, na marcação dois-e-dois.

-         Vaneira: Origina-se  da primitiva “habanera” cubana, de 1825, que se popularizou no Brasil inteiro lá  pelos  anos  de 1880, depois de ter  como foco de irradiação a

47

 

capital Paris, que a exportou como modismo da época para o mundo inteiro. Chegou ao Rio Grande do Sul sob o nome de “havaneira”, posterior a outras danças de par enlaçado como a valsa, chotes, polca e mazurca. Também grafada simplesmente como “vaneira” no meio pastoril riograndense; adquiriu variações coreográficas ao contato com os carreiros das gaitas de botão, em nossos bailes gauchescos.

Além das danças outro fator muito importante dentro cultura riograndense, diz respeito a indumentária.

O homem do Rio Grande do Sul adaptou suas vestimentas baseado nas suas necessidades e no seu tipo de vida. Com o decorrer da história os trajes vão sofrendo processos de modernização, porque os costumes são constantemente alterados e nada mais claro que os trajes também tenham tido uma modificação, mantendo, no entanto, a sua raiz.

De acordo com pesquisas realizadas por diversos historiadores, a indumentária do gaúcho de acordo com sua evolução se divide historicamente em dois períodos distintos, caracterizando, o primeiro, pelo uso do chiripá se estendendo até a Guerra do Paraguai e o segundo, à partir deste período, pela generalização do uso da bombacha.

“O traje mais antigo caracterizava-se pelo uso do chiripá, peça de pano de forma retangular, quase sempre preto ou cinza, de comprimento variável (geralmente duas vezes o das pernas), passada frouxamento  por entre as pernas, a semelhança de uma fralda de criança e cujas pontas eram presas à cintura pela faixa ou pela guaiaca”. (Meyer, 1975.p.141).

A roupa do gaúcho, a “pilcha” é uma forma única de vestir oriunda da composição de várias culturas. Por exemplo, as botas de couro, o chapéu e a boina estilo basco são originadas dos portugueses e espanhóis. A faixa na cabeça e o poncho-pala foram herdados

48

 

dos índios missioneiros. Mas as bombachas tem origem turca. A cor do lenço de seda, este inventado pelo gaúcho relevou o posicionamento político de quem o usava.

  “Então, de peças da indumentária ibérica, de peças da indumentária indígena e de outras tantas peças de sua própria invenção, o gaúcho do RS foi constituindo sua própria indumentária”. (Fagundes, 1992.p.13)

para podermos descrever melhor o traje do habitante do Rio Grande do Sul, teremos que primeiro observarmos os aspectos do traje  primitivo, que foram descritos pelo Padre Antônio Sepp nos anos de 1691 à 1701. Provavelmente são os primeiros relatos que falam da  situação em que se encontrava o indígena e de seu modo de vestir.

Quando da chegada dos jesuítas, os índios se encontravam praticamente nus, sua cultura só foi se modificando à medida que os  misssioneiros foram catequizando-os e interferindo em seus costumes.

Também os espanhóis e açorianos influenciaram no modo de vestir dos índios, utilizando e ensinando o fazer dos teares e das fiações caseiras.

    “Sua indumentária foi-se modificando através do contato com os europeus e os jesuítas, que os ensinaram a se proteger contra o frio e a zelar pela moral católica. Os bons resultados obtidos pelos padres foram registrados claramente nas cartas que Padre Sepp escreveu a seus superiores. A nova cultura, que Padre Sepp transmitia, iniciava com o fiar e o tecer e ia até a confecção de calçados e camisas”. ( Zattera. 1989.p.31). 

Os índios missioneiros oriundos da tribo do Tapes e Gês-guaranizados, passaram a se vestir de acordo com a severa moral jesuítica, usavam calções europeus, em seguida camisa. Também vestiam uma peça de indumentária não européia, “el poncho” isto é, o pala bichará*.

* Pala birichá: vestimenta tecida com lã natural, fiada artesanalmente.

49

 

 Esta peça passou a existir principalmente porque os índios pré-missionários aprenderam a tecer e fiar.

As  mulheres usavam o “tipoy”, era um longo vestido formado por dois panos costurados entre si, deixando uma abertura para os braços e pescoço. Na cintura, usavam uma espécie de cordão, chamado “chumbé”.

Já os índios cavaleiros que eram os Charruas, Minuanos, Yarós, estes eram mais selvagens e excelentes cavaleiros, usavam duas peças de indumentária bem originais: o chiripá e o cayapi. E suas mulheres usavam apenas o chiripá.

“...o chiripá era, então uma espécie de saia, constituída por um retângulo de pano enrolado da cintura até os joelhos. O cayapi dos minuanos era, a essa época, um couro de boi inteiro e bem sovado, que se usava às costas, como manto ou capa, com o pêlo para dentro e carnal para fora, pintado com listras verticais e horizontais em cinza e ocre”. (Fagundes, 1992. p.13).

Com o passar do tempo começaram a chegar os portugueses e espanhóis, aventureiros a procura de riqueza. Estes trouxeram junto com a bagagem o seu modo de vestir, começando assim a delinear-se novos tipos de vestimentas do riograndense.

Vão aparecer os primeiros  estancieiros, que tinham dinheiro e trajavam-se à européia, usavam a braga, as ceroulas de crivo, a bota de garrão de potro, esta foi inventada pelo gaúcho. Igualmente o cinturão-guaiaca, o lenço de pescoço, o pala indígena, a tira de pano prendendo o cabelo, o chapéu de pança de burro, etc.

“Ceroula de crivo, de herança provincial ubérica, tipo de calça de cretone, algodão ou linho, com comprimento que ia a metade da perna, de onde pendiam franjas desfiadas do próprio tecido( crivo). A braga, chamada pelos espanhóis de calções, era uma espécie de calça justa nas cadeiras e coxas, terminando abaixo dos joelhos, onde tinha um corte que podia ser fechado por botões”. (Acri, 1985.p.53).

50

 

O peão destas estâncias usava uma vestimenta que o protegesse e não atrapalhasse a sua atividade, que era a de caçar o gado e  cavalgar. Geralmente, este gaúcho usava o chiripá, que era um pano enrolado como saia, até os joelhos, meio aberto na frente, para facilitar o cavalgar e mesmo o seu caminhar, e juntamente usava um pala enfiado na cabeça.

O chiripá com o tempo sofre alterações como é o caso da época dos vários conflitos que existiam no Rio Grande do Sul. Este tipo de chiripá não é adequado a equitação, mas ao homem que anda a pé, é em forma de grande fralda, passada por entre as pernas.

“Já o novo chiripá, em forma de grande fralda passada por entre as pernas, adapta-se bem ao ato de cavalgar e essa é certamente a explicação para o seu aparecimento entre os gaúchos de três pátrias ( Brasil-Uruguai-Argentina). Assim fique desde já claro que o chiripá primitivo, o de saia, era indígena. Já o novo chiripá, de fralda, é inteiramente gauchesco. (Fagundes, 1992.p.19).

 

 

O chiripá foi usado em nosso estado até meados de 1865, quando surgiu a bombacha, de origem turca, trazida pelos europeus. Hoje em dia o chiripá é raramente usado, a não ser em apresentações artísticas de grupos de danças folclóricas.

A bombacha veio para o Brasil usada pelos pobres na Guerra do Paraguai, por isso usar bombacha em um baile até o começo do século era um desrespeito.

“A bombacha, vinda do Uruguai, entra no Rio Grande do Sul durante a Guerra do Paraguai e começa a ser adotada pelos pobres, passando mais tarde seu uso para caudilhos e estancieiros; aos pouco, toma conta de toda a Campanha e por volta de 1893 já não se vê quase ninguém de chiripá. Essas bombachas eram bem amplas, de cores cinza escura, preta e “pied de poule”. Eram de casemira. Com a bombacha continua o uso da faixa larga, de quase um palmo, preta, vermelha ou azul clara; sobre a faixa, a guaiaca”. (Acri, 1985.p.143).

 

O tradicionalista Paixão Côrtes define a indumentária da prenda como sendo um “vestido de chita floreado com lenço de seda amarrado no pescoço”.

 

51

 

A indumentária feminina nesta época sofria influência européia, a partir de 1870 a mulher começa a vestir-se de forma variada.

Como dissemos anteriormente o MTG (Movimento Tradicionalista gaúcho) surge como orgão coordenador das atividades tradicionalistas no Estado e como responsável pela disciplinação do uso adequado das “pilchas”, visando uma maior consciência tradicionalista.

Esta função de coordenar visa orientar o grande número de adeptos, participantes e simpatizantes, que, sem os devidos conhecimentos, provocam a ocorrência de deslizes, os quais comprometem e descaracterizam o tradicionalismo riograndense. A bombacha, traje histórico, que revela a imagem maior do homem riograndense, precisa ser preservada em seus aspectos regionais, assim como outras peças, que simbolizam a cultura riograndense. Por outro lado, o “vestido de prenda”, criado nos primórdios do Movimento Tradicionalista, também segue a mesma linha de orientação para que não ocorra exageros, e se possa adequá-los tanto as estações climáticas, às idades e situações de uso.

                   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

Para concluir este trabalho podemos dizer que a imagem construída em torno do gaúcho passa por várias instâncias. Há vasta bibliografia  explorando os acontecimentos que registram os momentos em que a cultura e o ser gaúcho são valorizados. Desde o Parthenon Literário com Apolinário Porto Alegre, ou ainda, a obra o “Gaúcho” de José de Alencar. A Guerra do Paraguai que aproveita a habilidade dos cavaleiros da província sul brasileira. A Revolução Farroupilha. Os combates acirrados da política interna, a literatura, o surgimento dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs). Enumerar tantos elementos é uma tarefa longa e pode se tornar incompleta.

Podemos observar através desta pesquisa que o gaúcho pode estar representado na pessoa de um homem sem princípios, sem honra, à margem da sociedade. Assim como pode ter a imagem criada através de uma produção literária mitificada e idealizada intensamente durante o período da República Velha no Rio Grande do Sul.

Já os tradicionalistas procuram fazer uma mistura desses dois tipos, o gaúcho histórico e o literário, formando assim uma imagem idealizada do gaúcho heróico.

O documento elaborado por Glauco Saraiva estabeleceu um pacto ideológico dos tradicionalistas, para evitar a perda dos princípios de formação moral do gaúcho. É resgatado um mundo onde são protegidos os heróis riograndenses para projetá-los ao futuro, procurando esconder  o  verdadeiro teor da história, inclusive os conflitos sociais. Devido a isso, o gaúcho

53

 

deixa de ser um ser social e passa a ser um símbolo mitificado.

Pretendeu-se, através deste trabalho dar uma visão geral de  vários assuntos, como surgiu o gaúcho, tanto na sua forma primitiva, literária ou fundamentada dentro dos princípios tradicionalistas.

As danças que tiveram papel importante dentro do cenário riograndense. Estas sofreram influências culturais de diversos países, não  eram tidas como só um divertimento, elas serviram muitas vezes de intecâmbio cultural aproximando grupos que estavam separados pela  imensidão territorial.

O gaúcho do interior do Estado, aquele da lida de campo, muitas vezes descendente dos gaúchos primitivos, estes vivem sem se preocupar com a modernidade e os padrões atuais.

O surgimento do tradicionalismo como sendo de fundamental importância, para preservar a nossa cultura tradicional. Esta estava sendo ameaçada de desaparecer pelo modernismo, mas com a perseverança de alguns idealistas que fundaram o “Grêmio Gaúcho” conseguiram enraizar pela primeira vez o tradicionalismo no estado.

A importância da vestimenta do gaúcho que teve dois momentos: O primeiro pelo uso do chiripá, que evolui do primitivo até a Guerra do Paraguai, e o segundo pelo uso da bombacha, que é usada até os dias atuais.

O MTG ( Movimento Tradicionalista gaúcho) como sendo um órgão de fundamental importância para organizar, tanto os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), como disciplinar o uso correto das pilchas, procurando com isso uma maior consciência tradicionalista.

Mas o mais importante é o orgulho que temos de demostrar em sermos gaúchos, independente  das  ideologias  do  passado,  se  foram  corretas  ou  não.   Porque  é  aqui  que

54

 

nascemos, e portanto devemos cada vez mais engrandecer este Estado com nosso trabalho e dedicação, para que nossa história seja admirada e respeitada nas outras regiões do  País.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

JACQUES, João Cezimbra. Ensaio sobre os costumes do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Typographia Gundlach, 1979.

 

FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. 3ª  edição. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1990. 152.p.

 

CESAR, Guilermino. História do Rio Grande do Sul. Período Colonial> Porto Alegre: editora Globo, 1970.

 

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. 6a edição. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992.142p.

 

FONSECA, Pedro Cezar Dutra. RS: Economia & Conflitos Políticos na República Velha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. 144p.

 

SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul> Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 1987.496p.

 

DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande de S. Pedro do Sul. 4a edição. Porto Alegre: Nova Dimensão/Edipucrs, 1990.144p.

 

AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pela Província do Rio Grande do  Sul(1858). Belo Horizonte: Editora Italiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1980.

 

LAMBERTY, salvador Ferrando. ABC do Tradicionalismo gaúcho. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1989.146p.

 

GONÇALVES, Raul Annes. Mala de Garupa(costumes campeiros). Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1984.112p.

MAYA, Alcides. Tapera. Rio de janeiro: H. Garnier, Martins Livreiro- Editor, 1911.

 

ALENCASTRO, Álvaro de. Azares das revoluções. Porto Alegre: Oficinas Gráficas da Livraria do Globo, 1928.

 

CALLAGE, Roque. Terra Natal(Aspectos e Impressões do Rio Grande do Sul). Porto Alegre: Editores Barcellos, Bertasso & C., 1920.

 

ACRI, Edison. O gaúcho; uso e costumes. Porto Alegre: Grafosul, 1985.180p.

SARAIVA, Glaucus. Manual do Tradicionalismo. Porto Alegre: Livraria Sulina editora, 1968.

 

CÔRTES, Paixão e LESSA, Barbosa. Danças e Andanças da Tradição Gaúcha. 2a Edição. Porto Alegre: Editora Garatuja, 1975.

 

MEYER, Augusto. Guia do Folclore Gaúcho. 2a edição. Rio de Janeiro: Editora Presença, 1975.

 

FAGUNDES, Antônio Augusto. Indumentária Gaúcha. 5a edição. Porto Alegre: Martins livreiro, 1992.

 

ZATTERA, vera Stedile. Traje Típico gaúcho. Porto Alegre: Lusografia – Gráfica e editora, 1989, 132p.

 

FILHO, Arthur Ferreira. História geral do Rio Grande do Sul. 4a edição. Porto Alegre: editora Globo, 1974.

 

ALBECHE, Daysi Lange. Imagem do gaúcho: História e Mitificação. Porto Alegre: Edipucrs, 1996. 152p.

 

LE GOFF, Jacques, Nora, P. História: Novos Objetivos. 3a ed. Tio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

GONÇALVES, Raul Annes. Mala de Poncho. Reminiscências e costumes campeiros. Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 1987.

 

CÔRTES, Paixão e LESSA, Barbosa. Manual de danças Gaúchas. 5a edição. São Paulo: Editora Irmãos Vitale, 1955.

LANDO, Aldair Marli e outros. RS: Imigração e colonização. 3a edição: Porto Alegre: editora mercado Aberto, 1996.

 

BARCELOS, Ramiro Frota. Rio Grande Tradição e Cultura. Porto Alegre: Edições Flama, 1970.

 

LAZZAROTTO, Danilo. Histórias do Rio Grande do Sul. 5a edição. Porto Alegre: editora Sulina, 1986.

 

MARQUES, Lilian Argentina B. e outros. Rio Grande do Sul: Aspectos do Folclore. Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 1989. 178p.

 

FILHO, Cel. Artur Ferreira. Caudilho Platinos e Caudilhos Riograndenses. Revista do Museu Júlio de Castilhos e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 1953. Ano 2. no 3.

 

 WEIMERA, Gunter. Engenheiros Alemães no Rio Grande do Sul na Década 1848-1858. Revista estudos Ibero-Americanos Pontifícia Universidade católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 1979. Vol. V, no 2.

 

BARROSO, Vera Lucia Maciel. A Formação da primeira Rede de  Vilas no Rio Grande de São Pedro. Revista estudos Ibero-Americanos. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Porto Alegre: 1980. Vol. VI, no 2.

 

MACHADO, Propício da Silveira. O gado e o gaúcho. Revista do Museu Júlio de Castilhos e Arquivo do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 1953. Ano. 2. no 3.
 
© 2011 Texto Livre - Joomla! is Free Software released under the GNU/GPL License.

Compartilhe

 
Joomla Templates from JoomlaShack