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Quero me perder em um final de tarde de domingo
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Quero me perder em um final de tarde de domingo

Caso, um dia desses, tu souberes, por aí, que eu me perdi em um final de tarde de domingo, que fui, sem mais nem menos, espalhado pelo mundo, feito “dente de leão”, ao sopro de um vento preguiçoso, desses que só aparecem no finalzinho de verão, não fique aflita nem pense em prestar queixas à polícia. Não há motivo para tanto. Deixa tudo como está e segue agindo com toda tua exacerbada naturalidade - como sempre fazes muito bem –, com aquele teu típico olhar de moça distraída, desligada dos assuntos que pedem um pouco mais do que esforço físico. Mesmo porque, duvido que alguém vá se importar se, de uma hora para outro, eu deixar de caminhar pelas ruas de nosso bairro, logo eu, que sou tão discreto, que quando não estou em meu trabalho, passo quase todo tempo aninhado na rede de balanço, nos fundos da casa, ocupando-me em desvendar segredos e mistérios há muito ocultos entre esta vasta terra em que tenho meus pés plantados e o distante e infinito céu celeste que, sinceramente, não sei se de fato é azul. Ademais, se saíres por aí, feito uma doidivanas, escancarando, aos quatro cantos deste mundo, um caso estranho como o que estou imaginando, quantos conhecidos nossos não pensarão que finalmente perdesses, de vez e totalmente, o pouco que havia de entendimento em tua confusa cabecinha. Acabarás se transformando em um alvo de chacota, “porque – eles dirão, rindo – ninguém simplesmente some como se fosse fumaça a evaporar no ar... Só pode, mesmo, ser coisa dessa moça que não bate bem da caçoleta”. Não, não fales nada, ó criatura doce e ingênua. É melhor ficar quietinha em teu canto. Finja-se de morta, como fazem os gambás e os camaleões para se protegerem de seus predadores, pois, assim, evitarás arranjar uma bela de uma dor de cabeça com os nossos vizinhos. De tão estranho e inusitado que parecerá o ocorrido aos ouvidos das pessoas que nos conhecem, pode ter certeza de que, no mínimo, por um bom tempo, muitos pensarão que eu não me perdi coisa nenhuma, mas que fui embora para algum lugar distante, quem sabe para resolver, talvez, problemas sérios de saúde. Já imaginou o que pensarão aqueles que sabem do meu desprezo aberto e declarado por todos esses gestos inúteis e estúpidos que normalmente ocorrem no decurso do cotidiano? Embora nunca tenhas compreendido muito bem esse meu jeito diferente de enxergar o mundo, no fundo, tu sabes o quanto sou arredio a essas incontáveis regras e costumes impostos pelo meio em que vivemos. Mas, se, de fato, de um dia para o outro, eu me perder, desaparecer, e acabar me tornando apenas mais um mero e simples número no rol dos estranhos casos dos “desaparecidos”, espero, sinceramente, que, por consideração ao longo e desproposital tempo em que passamos juntos, tu, pelo menos - depois de findados todos os cortejos fúnebres, ainda que seja algo simbólico, já que não haverá um corpo para ser velado - faça-me a gentileza de organizar os meus pertences que não te servirem para nada, por acreditares que são artigos incontestavelmente masculinos ou meros objetos que não te dizem nada, que sempre te pareceram coisa de outro mundo. Dentre estes, tenha muito cuidado com os meus livros. Quero que comeces por guardar o que ainda não terminei de ler, depositando-o na estante, junto aos outros. Se encontrares um desses meus livros aberto sobre a escrivaninha, cuidado para não confundi-lo com um objeto comum, como, por exemplo, um calço de porta. Quanto àquela pantufa azul que tanto gosto - e só tu sabes muito bem o quanto -, já bem surrada pelo tempo de uso, com cara de coelho, que sempre fica recostada ao pé da nossa cama, se quiseres, pode doá-la a algum sujeito que encontrares vagabundeando pela rua, e que julgares ser tão estranho e indiferente aos rompantes desta vida quanto eu. No mais, sugiro que procures seguir a tua vida de maneira bem serena, tranquila, com discrição, sem desespero nem muitos rancores, enquanto eu sigo o meu caminho na paz que suponho merecer... A começar por evitar demonstrar muita afetação, principalmente em público, pelo meu suposto e inusitado sumiço. Não, não quero, nem mesmo por um momento, que derrames uma só lágrima nem gastes muito tempo e saliva falando sobre isto com alguma dessas amigas desvairadas que pululam em tua agenda telefônica... Deixa a interpretação a quem sabe, ou seja: às atrizes. Por favor, para teu próprio bem - e digo isto por gostar de ti, mesmo com este teu jeito destrambelhado e distraído -, depois que eu me for para sempre de tua vida, procure, antes de saíres de casa, fechar portas e janelas, apagar as luzes que amanheceram acesas, verificar se todas as torneiras seguem devidamente fechadas, e, também, por caridade, não vá se esquecer de ir ao fundo do quintal, alimentar o meu velho cão de estimação, assim tu amenizarás a minha culpa de ter que deixá-lo para trás, e, ao mesmo tempo, suavizarás a falta que, tenho certeza, eu lhe farei. Espero, sinceramente, que tenhas muito juízo e saibas te manter em estado de alerta quando surgirem – e, estejas certa de que surgirão - pessoas maldosas e indecorosas para meter caraminholas em tua cabecinha já tão desprovida de juízo, a te dizer que precisas aproveitar a vida, te soltar mais, ir a festas, baladas, dar-se a conhecer a novas amizades... Enfim, ser liberal e desfrutável. Digo isto, porque, afinal... Uma suposta “viuvinha”, assim, novinha como tu, desarmada de malícias, sem qualquer preparo para a árdua tarefa de se administrar, em razão dessa traiçoeira e perversa enfermidade que há muito te aflige, a que chamam de compulsão, que, no fundo, para mim, só quer dizer que tu ages mal, ao “querer dar sempre o passo maior do que as pernas” nos assuntos que envolvem finanças. Na certa, não escaparás de se tornar uma presa bem fácil a alguns lobos aproveitadores de mulheres frágeis. Seria bom se tu pudesses, sim, seguir uma vida solitária, casta, sem muitos exageros e de maneira mais discreta... Não digo em uma prisão convencional, que, sei, tu não és uma criminosa para tanto. Mas já pensasses na possibilidade de viver em um convento? Se isto não te parecer louvável, pelo menos, procure se esforçar para acordar todos os dias bem cedinho, abrir a janela do quarto, respirar bem fundo o ar puro da manhã e, antes de ir para o trabalho, cumprir o teu ofício, sabendo que, o meu sumiço, foi uma grande encenação, tudo planejado, de caso pensado, tome uma ducha, deixando a água lavar a tua alma, depois, uma xícara de café bem forte. Tu, a quem tenho tentado despertar para que vejas o quanto este mundo é estranho, perigoso, perverso e hostil, já deveria saber que sou um caso perdido, porque, ao contrário da grande maioria, meu gosto é por histórias com finais inusitados, soberbos e exagerados. Portanto, não perca muito tempo matutando sobre o absurdo que será, caso ocorra, o meu sumiço. Que magnífica história poderia me render, se, de fato, eu pudesse desaparecer assim, de uma hora para outra, de repente, em um segundo. Que estupenda história renderia. Quem sabe poderia transformá-la em uma novela, peça teatral, romance, filme. Penso que seria bom poder ser uma espécie de fugitivo sem ter ninguém a me perseguir, poder ir para bem longe desta irritante monotonia impregnada nos umbrais dos dias sucessivos, que atravessam as semanas, montados no pavoroso monstro da terrível aporrinhação dos afazeres do trabalho mecanizado, onde, quase todo tempo, ficamos a contar os minutos que ainda restam para o término do estafante expediente. Se tu queres saber, de verdade, o que estou pensando e sentindo enquanto escrevo isto... No fundo, tudo isto é fruto do cansaço de um pobre coração há muito prisioneiro de uma vida sem cores nem sabores. Às vezes, chego a pensar que sou parte de uma peça de teatro cujo único papel que me restou, jaz ignorado lá em um canto do palco, à sombra. Sejamos francos e honestos... Isto, aqui, não é brinquedo, não. Não desvies teus olhos de mim enquanto eu te falo, por favor. Só me responda isto, então: tu aguentarias viver uma vida mal humorada, sempre reclamando das tarefas estafantes e imbecilizadas que te obrigam a realizar, todos os dias da semana, a fim de justificar um parco e minguado salário pago ao final do mês? Talvez, nem seja preciso tanto. Isto de, de repente, eu sumir, é exagero. Bastar-me-ia - se Deus assim me permitisse - alcançar esta pequena dádiva: parar diante de uma encruzilhada e, sem querer, acabar por escolher a direção errada... E, assim, mesmo tendo percebido a tempo o engano, continuar seguindo, passos firmes, por essa estrada, como se ela fosse minha única salvação. Eu deveria começar agora mesmo, quem sabe apagando de minha mente perturbada toda esta minha inquietação, transformada, neste exato momento em que descrevo esta estafante avalanche de emoção, em uma escrita cansativa e sem sentido algum. Escuta aqui, ó meu desvio para as sensações que nunca soube compreender... Não liga muito, não, para todas estas bobagens que, vez ou outra, eu fico falando aos teus ouvidos ou simplesmente escrevendo, como agora. Faço isto, para, no fim, ter com que me ocupar naquelas horas em que fico ouvindo uma estranha voz a martelar em minha cabeça a seguinte e inquietante pergunta que nunca soube responder: que sentido tem esta vida, afinal? Sei que és muito diferente de mim. Com certeza, deves levar uma vida infinitamente mais feliz do que a minha, com esse teu jeito de quem não costuma perder noite de sono pensando nos porquês da vida. Já eu sofro, demasiadamente, deste mal. No fundo, sei que sou um tolo, um bufão... Apenas um grande bufão, espiando no fundo do palco, à sombra, à espera insuportável e interminável de um sinal para subir no palco e desenvolver o seu papel, uma triste cena em que todos riem do ator. E que cena... E que sina esta minha. Mas que nada... Isto se chama viver, e, viver, às vezes, é assim mesmo... Estranha-nos e dói.
 
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